✦O Casal Legendáriopor Ricardo Martins & Vanessa Lima
Notícia comentada

“Proibido criança”: o avanço dos espaços childfree e o que isso diz sobre nós

Reportagem da Folha de S.Paulo (11/10/2026) mostra o avanço do movimento childfree em bares, hotéis, pousadas e até festas de casamento — prática que o Idec considera abusiva. Ricardo Martins comenta o que isso revela sobre como a nossa cultura enxerga os filhos e o que casais e igrejas podem fazer.

“Proibido criança”: o avanço dos espaços childfree e o que isso diz sobre nós
ResumoPousada que não aceita menores de 12 anos, convite de casamento com "apenas adultos". Ricardo Martins comenta a reportagem da Folha e explica por que o problema não é o casal querer um momento a sós, e sim uma cultura que passou a ver criança como incômodo.

O fato

Na véspera do Dia das Crianças, no domingo, 11 de outubro, a Folha de S.Paulo publicou a reportagem Espaços hostis a crianças constrangem famílias e expõem dificuldades de convivência, da jornalista Tatiana Cavalcanti. O texto mostra o avanço do movimento childfree (“livre de crianças”), que defende espaços restritos a adultos em bares, hotéis, pousadas e até festas de casamento com convite “apenas adultos”.

A reportagem ouve mães e pais que foram barrados ou constrangidos. Uma delas chegou com o marido e a filha de 4 anos a uma pousada no litoral norte de São Paulo e só na recepção soube que o lugar não aceitava menores de 12 anos. O jornal também registra a posição do Idec (Instituto de Defesa de Consumidores): restringir a entrada de crianças em estabelecimentos comerciais como bares e hotéis seria prática abusiva, que viola o Código de Defesa do Consumidor, a Constituição e o ECA. O debate jurídico segue aberto, e não é sobre ele que eu quero falar. Não sou advogado. Quero falar do que essa tendência revela sobre o coração da nossa cultura e sobre o lugar dos filhos dentro do casamento.

Antes de tudo: casal precisa de tempo a sós

Quero ser justo, porque esse tema costuma virar briga rápido.

Eu defendo, e vou continuar defendendo, que marido e esposa precisam de momentos só dos dois. Jantar sem ninguém pedindo para ir ao banheiro. Um fim de semana fora enquanto os avós ficam com as crianças. Isso não é egoísmo. É cuidar da raiz para a árvore continuar dando fruto. Muitos casamentos que eu acompanho não quebraram por causa de uma grande traição; foram secando porque o casal virou só “pai e mãe” e esqueceu de ser marido e esposa.

Também é verdade que existe criança sem limite, pai que finge que não vê e mesa vizinha que paga o preço. Quem já tentou ter uma conversa séria num restaurante ao lado de uma criança gritando por meia hora sabe do que eu estou falando. Educar dá trabalho, e parte da irritação que alimenta o movimento childfree nasce de pais que terceirizaram esse trabalho para a paciência dos outros.

Então o problema não é o casal que escolhe um restaurante tranquilo para o aniversário de casamento. O problema é outro.

O problema é quando a criança vira incômodo

O que me chama atenção na reportagem não é uma pousada aqui e outra ali. É a mentalidade por trás. Aos poucos, a criança deixa de ser vista como bênção e passa a ser vista como ruído: algo que atrapalha o descanso, a estética, a experiência, o “meu momento”.

E isso não acontece num vácuo. Segundo o Censo 2022 do IBGE, a taxa de fecundidade no Brasil caiu para 1,55 filho por mulher, a menor da história. Eu já comentei esse dado aqui no blog. Um país que tem cada vez menos crianças corre o risco de se desacostumar com elas, e o que é raro logo parece estranho. Não estou dizendo que um dado explica o outro; estou dizendo que as duas coisas apontam para a mesma direção.

A Bíblia vai na direção contrária. “Herança do SENHOR são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão” (Salmos 127.3, ARA). Herança não é peso. É o que alguém de valor deixou nas suas mãos.

Jesus ficou indignado com quem barrava as crianças

Tem uma cena no Evangelho de Marcos que parece ter sido escrita para hoje. Pais traziam os filhos para Jesus tocar neles, e os discípulos repreendiam esses pais. Na cabeça dos discípulos, o Mestre tinha coisas mais importantes a fazer. Criança era distração.

A reação de Jesus é uma das poucas vezes em que o Evangelho diz que Ele ficou indignado: “Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus” (Marcos 10.14, ARA). E Marcos completa: “Então, tomando-as nos braços e impondo-lhes as mãos, as abençoava” (Marcos 10.16, ARA).

Repare: os discípulos não eram maus. Eles só achavam que estavam protegendo um ambiente “adulto”, sério, produtivo. Jesus chamou isso de obstáculo. Ele foi além: “E quem receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe” (Mateus 18.5, ARA).

E a igreja? Ela é um espaço childfree?

Aqui eu preciso fazer uma pergunta desconfortável para nós, cristãos. É fácil criticar a pousada. Mas como a sua igreja reage quando um bebê chora no meio da pregação? Quando a mãe precisa levantar três vezes no culto? Quando o casal chega atrasado porque o filho de 3 anos resolveu fazer birra no estacionamento?

Muitos casais jovens se afastam da igreja não por causa de doutrina, mas porque se sentem um estorvo. O olhar torto pesa mais do que qualquer sermão. Se o mundo está fechando portas para as famílias, a igreja tem a chance de ser o lugar onde a porta está aberta, com fralda trocada, choro e tudo.

O que isso tem a ver com o seu casamento

Muito. Porque a forma como uma cultura trata as crianças acaba entrando dentro de casa. Conheço casais em que um dos dois, sem perceber, passou a tratar os filhos como obstáculo para a própria vida: “depois que as crianças vieram, eu perdi tudo”. E conheço casais que se esconderam atrás dos filhos para não precisar olhar um para o outro. As duas coisas adoecem o casamento.

O caminho saudável é o do meio, e é bíblico: os filhos são bênção, e o casamento é a base que sustenta essa bênção. Algumas atitudes práticas:

  1. Alinhem como casal o que vocês acreditam sobre filhos. Não deixem a cultura decidir por vocês se criança é peso ou presente. Conversem sobre isso com honestidade, inclusive sobre cansaço.
  2. Eduquem de verdade. Ensinar a criança a respeitar o espaço dos outros é amor por ela e pelo próximo. Limite não é o contrário de acolhimento; é parte dele.
  3. Protejam o tempo de vocês dois sem transformar isso em rejeição aos filhos. Um encontro a sós por semana, mesmo que seja na sala depois que eles dormem, faz mais pelos filhos do que muito presente caro.
  4. Se vocês não têm filhos ou eles já cresceram, sejam a mesa que acolhe. Ofereça ajuda à mãe cansada no culto. Sorria para o pai atrapalhado no restaurante. Você não imagina o peso que isso tira.

Uma palavra final

Eu já fui o problema do meu casamento. Sei o que é colocar a minha agenda, o meu descanso e o meu ego acima das pessoas que Deus colocou do meu lado. Por isso eu não leio essa notícia apontando o dedo para os outros. Leio pedindo a Deus que me livre de olhar para a minha própria família como incômodo.

O mundo pode escrever “proibido criança” na porta. Que a nossa casa e a nossa igreja escrevam o que Jesus disse: “Deixai vir a mim os pequeninos”.

Se o cansaço da rotina com filhos está afastando você e o seu cônjuge, comece pelo Guia de 21 Dias de O Casal Legendário: um passo por dia para reconstruir a conexão do casal com Cristo no centro.

Fontes

  1. Espaços hostis a crianças constrangem famílias e expõem dificuldades de convivência — Folha de S.Paulo, 11/10/2026
  2. Taxa de fecundidade do país caiu para 1,55 filho por mulher, de acordo com o Censo 2022 — IBGE Educa
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Ricardo Martins

Ricardo Martins

Ricardo Martins é escritor, pastor e porta-voz do movimento Legendários. Ao lado da esposa, Vanessa Lima, criou O Casal Legendário, que alcança milhões de pessoas com conteúdo sobre casamento cristão e restauração. Autor de "Quando o amor recomeça" (Citadel, 2026).

Precisa de um plano pro seu casamento?

O Guia de 21 Dias é o passo a passo que Ricardo e Vanessa usam com casais em crise — um dia por vez, com Cristo no centro.

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