✦O Casal Legendáriopor Ricardo Martins & Vanessa Lima
Notícia comentada

Pesquisa: 82% dos brasileiros são contra celular para crianças de até 3 anos — então quem está entregando o aparelho?

Pesquisa do Instituto Locomotiva divulgada em 9 de outubro de 2026, às vésperas do Dia das Crianças, mostra que 82% dos adultos brasileiros são contra crianças de até 3 anos diante do celular e que 83% acham que as crianças "não querem mais brincar na rua". Ricardo Martins comenta o que isso diz sobre os pais — e sobre o casal.

Pesquisa: 82% dos brasileiros são contra celular para crianças de até 3 anos — então quem está entregando o aparelho?
ResumoQuase todo mundo concorda que criança pequena não deveria ficar no celular. Quase todo mundo acha que brincar na rua é melhor. E mesmo assim o aparelho continua na mão delas. Neste Dia das Crianças, Ricardo Martins comenta a pesquisa e faz uma pergunta desconfortável para pais e mães.

O fato

Às vésperas do Dia das Crianças, o Instituto Locomotiva divulgou uma pesquisa, noticiada pela Agência Brasil em 9 de outubro de 2026, com 1.367 adultos ouvidos entre 28 de setembro e 6 de outubro. 82% dos brasileiros são contra crianças de até 3 anos ficarem diante do celular; para crianças de 4 a 7 anos, a rejeição é de 75%. Ao mesmo tempo, 52% aceitam que a criança ganhe um aparelho próprio até os 12 anos.

Os dois números que mais me chamaram a atenção vêm juntos: 83% dos adultos acham que as crianças de hoje “não querem mais brincar na rua” e preferem “ficar no celular ou TV” — e 73% dizem que brincar na rua é melhor para a criança do que ficar diante das telas. A reportagem lembra ainda que o guia oficial sobre uso de dispositivos digitais, publicado pelo governo federal no ano passado, recomenda que crianças com menos de 2 anos não sejam expostas a telas de celular, exceto para videochamadas com a família.

O que vem a seguir é a minha opinião, como pai e como alguém que caminha com casais em crise.

Todo mundo concorda. E nada muda.

Leia de novo os números. Oito em cada dez adultos são contra criança pequena no celular. Sete em cada dez acham que a rua é melhor do que a tela. Quase ninguém está defendendo o celular na mão de um bebê.

Então eu faço a pergunta que a pesquisa deixa no ar: se quase todo mundo é contra, quem está entregando o aparelho?

Não foi a criança de 2 anos que foi à loja, escolheu o modelo e colocou o desenho para tocar. Fomos nós. Os adultos. Os pais. E eu me incluo nessa — eu e a Vanessa temos dois filhos, e sei muito bem como é a tentação do “só cinco minutinhos para eu conseguir respirar”.

É por isso que a frase “as crianças não querem mais brincar na rua” me incomoda um pouco. Ela soa como se a culpa fosse da criança. Como se a geração tivesse vindo de fábrica sem vontade de correr, de se sujar, de inventar um jogo com uma tampinha. Não veio. Criança aprende a querer aquilo que a gente oferece. Se a primeira coisa que ela recebe quando chora é uma tela, ela vai aprender a pedir tela quando estiver triste. Não é defeito dela. É hábito que nós ensinamos.

Celular não é babá — e pai não é visita

Eu entendo o cansaço. Pai e mãe que trabalham o dia inteiro chegam em casa esgotados, ainda tem janta, banho, louça, conta para pagar. O celular resolve o silêncio da sala em três segundos. Mas a pergunta não é se ele funciona. É o que ele está substituindo.

Na maioria das casas que eu conheço, o celular na mão do filho não está substituindo um professor ruim. Está substituindo o pai sentado no chão. A mãe contando história. Os dois brincando de qualquer coisa boba por vinte minutos.

A Palavra de Deus coloca a formação dos filhos dentro da rotina, não num evento especial:

“Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” (Deuteronômio 6.6-7, ARA)

Sentado em casa. Andando pelo caminho. Na hora de deitar. Na hora de levantar. Repare que são exatamente os momentos que a tela costuma ocupar hoje — o sofá, o carro, a cama, o café da manhã. Não é que Deus seja contra tecnologia. É que Ele sabe que coração se forma no tempo comum, e o tempo comum é o primeiro que a gente terceiriza.

O celular do filho começa no celular do pai

Tem uma parte dessa conversa que quase nenhum pai gosta de ouvir: muitas vezes o problema não é o aparelho da criança. É o nosso.

A criança olha para o pai no sofá, rolando a tela. Olha para a mãe respondendo mensagem no meio do almoço. E aprende, sem ninguém dizer uma palavra, que é ali que a vida acontece. Não adianta proibir o celular do filho se ele nunca consegue tirar o nosso da frente para ser visto.

Na semana passada eu comentei aqui outra pesquisa, sobre filhos fazendo compras em apps e redes sociais, e a conclusão foi parecida: tela não educa sozinha, e o exemplo fala mais alto que a regra. Se você quer que seu filho largue o celular, a primeira tela que precisa ser desligada é a sua.

Isso é assunto de casal, não só de criança

Eu atendo muito casal, e existe um padrão que se repete: o pai acha que a mãe é “neurótica” com tela; a mãe acha que o pai é “relaxado demais”. Um proíbe, o outro libera escondido. A criança, que não é boba, aprende rapidinho a pedir para quem diz sim.

Quando o casal não está de acordo, a tela vira mais um campo de batalha dentro de casa — e a criança fica no meio. Por isso eu digo: antes de discutir quantos minutos o filho pode ficar no celular, sentem os dois e decidam juntos. Sem plateia, sem acusação. Algumas perguntas que ajudam:

  • A partir de que idade, e para quê? Videochamada com a avó é uma coisa; desenho infinito para a criança parar de chorar é outra.
  • Onde o celular não entra? Mesa de refeição, quarto na hora de dormir, carro em viagens curtas.
  • Qual é a nossa própria regra? Se vocês combinam “sem celular no jantar”, vale para os adultos também.
  • O que vamos colocar no lugar? Tirar a tela sem oferecer presença é só trocar o barulho do desenho pelo barulho do choro.

O mais importante não é a regra perfeita. É os dois falarem a mesma língua. Criança se sente segura quando percebe que pai e mãe estão do mesmo lado.

A rua cheia de crianças brincando

Existe um versículo de que eu gosto muito, e quase ninguém conhece. Quando Deus descreve, pelo profeta Zacarias, como seria Jerusalém restaurada, um dos sinais é este:

“As ruas da cidade se encherão de meninos e meninas, que nelas brincarão.” (Zacarias 8.5, ARA)

Criança brincando na rua aparece na Bíblia como sinal de paz, de cidade curada, de bênção. Não é saudosismo de quem cresceu sem internet. É um retrato do que Deus chama de vida boa. E Jesus, quando os discípulos tentaram afastar as crianças, foi direto:

“Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus.” (Mateus 19.14, ARA)

Às vezes o que embaraça a criança de chegar perto não é a teologia errada. É um pai que nunca está disponível.

Um convite para hoje

Hoje é Dia das Crianças. Muita gente vai dar presente, e tudo bem. Mas eu queria te fazer um convite simples: além do presente, dê tempo sem tela. Uma hora. Meia hora que seja. Celular em outro cômodo — o seu e o dele. Chão da sala, bola no quintal, massinha na mesa, história antes de dormir.

Seu filho não vai lembrar de todos os brinquedos que ganhou. Mas vai lembrar se você sentou no chão com ele.

Não existe pai perfeito, e não existe casa sem tela. Existe pai disponível. E isso, pela graça de Deus, qualquer um de nós pode começar a ser hoje.

Se você sente que o seu casamento está tão desgastado que nem essa conversa sobre os filhos vocês conseguem ter sem brigar, o Guia de 21 Dias foi feito para isso: um passo por dia para o casal voltar a conversar com Cristo no centro.

Fontes

  1. Pesquisa mostra que 82% são contra crianças de até 3 anos com celular — Agência Brasil (EBC), 09/10/2026 — pesquisa Instituto Locomotiva
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Ricardo Martins

Ricardo Martins

Ricardo Martins é escritor, pastor e porta-voz do movimento Legendários. Ao lado da esposa, Vanessa Lima, criou O Casal Legendário, que alcança milhões de pessoas com conteúdo sobre casamento cristão e restauração. Autor de "Quando o amor recomeça" (Citadel, 2026).

Precisa de um plano pro seu casamento?

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