Saúde mental preocupa 58% dos brasileiros — e o casamento está no meio disso
O Monitor da Saúde 2026, da Ipsos, noticiado pela Folha de S.Paulo, mostra que a saúde mental é o principal problema de saúde percebido no Brasil (58%), com uma diferença de 21 pontos entre mulheres (68%) e homens (47%). Ricardo Martins comenta o que isso significa dentro de casa e como o casal pode ser a primeira rede de cuidado.

O fato
No dia 10 de outubro, a Folha de S.Paulo noticiou o Monitor da Saúde 2026, pesquisa da Ipsos feita on-line entre 13 de julho e 7 de agosto com 22.528 adultos de 32 países — cerca de mil deles no Brasil. Segundo o comunicado oficial da Ipsos, 58% dos brasileiros apontam a saúde mental entre os maiores problemas de saúde do país, seis pontos a mais que em 2025 e acima da média global (48%). Ela aparece à frente do câncer (37%) e do estresse (29%).
O dado que mais me chamou atenção vem logo depois: 68% das mulheres colocam a saúde mental entre os principais problemas de saúde, contra 47% dos homens. Uma diferença de 21 pontos.
Um cuidado importante, que a própria Ipsos faz questão de registrar: a pesquisa mede percepção, não quantas pessoas têm algum transtorno. Ela diz o que o brasileiro acha que é problema, não o diagnóstico de ninguém. Mesmo assim, percepção revela muita coisa. Principalmente quando a gente leva esse número para dentro de casa.
O que esse número parece dentro de um casamento
Pense em 21 pontos de diferença na mesa da cozinha.
Ela percebe que alguma coisa está errada: ele dorme mal, explode por pouco, está sempre cansado, sumiu da conversa. Ela tenta falar. Ele responde que “é só uma fase”, que “homem não tem tempo pra isso”, que “isso é frescura”. Ou o contrário: ela é que está afundando, e ele acha que basta “ter mais fé” ou “parar de pensar besteira”.
Eu acompanho casais em crise e vejo esse desencontro com frequência. Muitas vezes o problema não é só a angústia em si. É que um dos dois enxerga e o outro não. E aí a dor ganha uma segunda camada: além de sofrer, a pessoa se sente sozinha dentro do próprio casamento.
A pesquisa traz outro dado, este da média dos 32 países: 17% dos entrevistados deixaram de participar de encontros sociais ou familiares no último ano por causa da saúde mental. Quando isso acontece, quem sente primeiro não é o chefe nem o pastor. É a esposa, o marido, os filhos.
Eu já estive do lado que não queria ver
Eu não escrevo isso de cima. Eu já fui o problema do meu casamento. E, naquela época, eu também vivia uma depressão. Sabia o que era certo, mas a cabeça estava confusa, eu não conseguia tomar decisões que hoje parecem óbvias. Precisei de terapeutas. Fiquei muito tempo nesse lugar. A Vanessa também precisou de terapia.
Eu conto isso porque muito homem acha que admitir que não está bem é perder autoridade. Não é. O que destrói a autoridade de um homem dentro de casa é fingir que está tudo bem enquanto todo mundo à volta está pagando o preço da crise que ele não quer nomear.
Já escrevi aqui sobre por que tantos homens não pedem ajuda na depressão e sobre como cuidar do cônjuge deprimido sem virar enfermeiro. Hoje quero dar um passo atrás e falar do casal como a primeira rede de cuidado.
A Bíblia não trata a alma abatida como frescura
Uma coisa que me liberta é ver que a Bíblia não tem vergonha de falar de tristeza profunda.
O salmista conversa com a própria alma: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu” (Salmos 42:5). Ele não nega que está abatido. Ele nomeia, e depois aponta para Deus.
Elias, depois de uma das maiores vitórias do Antigo Testamento, foge para o deserto e diz: “Basta; toma agora, ó SENHOR, a minha alma” (1 Reis 19:4). Deus não manda um sermão. Manda um anjo que o toca e diz: “Levanta-te e come” (1 Reis 19:5). Descanso, comida, presença. Só depois vem a palavra.
Eu gosto de lembrar disso porque às vezes, na igreja, a gente pula direto para o sermão. E a pessoa do nosso lado precisava primeiro de alguém que sentasse com ela.
Quatro atitudes para o casal
Não sou médico nem psicólogo, e este texto não substitui acompanhamento profissional. O que posso compartilhar é o que tenho visto funcionar no cuidado pastoral de casais:
1. Troque o “você está exagerando” por “me conta o que está acontecendo”. A diferença de 21 pontos da pesquisa começa aqui: um dos dois minimiza. Ouvir sem corrigir já é cuidado.
2. Observe sinais, não só palavras. Sono, apetite, irritação, isolamento, perda de interesse por coisas que antes davam alegria. Muitos homens não vão dizer “estou mal”. Vão mostrar.
3. Procure ajuda profissional juntos, sem vergonha. Fé e terapia não são inimigas. Eu orei muito e também precisei de terapeutas. Deus usou os dois. Se houver sofrimento intenso, procure um médico ou psicólogo; numa crise, o CVV atende pelo 188, de graça, 24 horas.
4. Não carreguem sozinhos. “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo” (Gálatas 6:2). Isso vale entre marido e esposa, e vale para a igreja em volta do casal. “Melhor é serem dois do que um […] Porque se caírem, um levanta o companheiro” (Eclesiastes 4:9-10).
Uma palavra para os homens
Irmão, se você está entre os que acham que saúde mental é “coisa de mulher”, eu te peço com carinho: olhe de novo para a sua casa. Talvez a sua esposa já esteja te avisando há meses. Talvez seja você que precise de ajuda, e o orgulho esteja falando mais alto do que o cansaço.
Jesus não chamou os fortes que dão conta de tudo. Ele disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). Reconhecer o cansaço não é falta de fé. É o primeiro passo para ir até Ele.
A Vanessa deu uma chance para Deus quando eu não merecia. A nossa confiança foi reconstruída tijolo por tijolo, e uma parte desses tijolos foi eu parar de fingir que estava tudo bem.
Se vocês querem começar esse caminho juntos, o Guia de 21 Dias foi feito para casais que querem reconstruir a conversa com Cristo no centro, um passo por dia.
Fontes
- Saúde mental é principal preocupação em relação à saúde para 58% dos brasileiros, diz pesquisa — Folha de S.Paulo, 10/10/2026
- Saúde mental lidera preocupações dos brasileiros, citada por 58%, mostra pesquisa da Ipsos (release, 08/10/2026) — Ipsos Brasil — Monitor da Saúde 2026
Precisa de um plano pro seu casamento?
O Guia de 21 Dias é o passo a passo que Ricardo e Vanessa usam com casais em crise — um dia por vez, com Cristo no centro.
Conhecer o Guia de 21 DiasEste conteúdo é educacional e pastoral. Não substitui terapia, atendimento médico, jurídico ou ajuda emergencial. Em caso de violência ou risco imediato, procure ajuda agora.


