Quanto dura um casamento no Brasil? A “crise dos 7 anos” e o que o IBGE mostra
Segundo o IBGE, o tempo médio entre o casamento e o divórcio no Brasil foi de 13,8 anos em 2024 — eram cerca de 16 em 2010. Ricardo Martins explica por que a “crise dos 7 anos” é meia-verdade e por que o maior perigo do casamento não tem data marcada.

Tem uma frase que eu escuto em quase todo encontro de casais: “Ah, mas vocês ainda não passaram pela crise dos 7 anos.” Às vezes vem em tom de piada. Às vezes vem como profecia. E muita gente casada vive como se tivesse uma bomba-relógio programada para estourar no sétimo aniversário.
Eu entendo o medo. Mas quero te mostrar o que os números brasileiros dizem — e, principalmente, o que eles pedem de quem está casado hoje.
O que o IBGE mostra sobre quanto dura um casamento
Nas Estatísticas do Registro Civil de 2024, o IBGE mediu o tempo entre a data do casamento e a data da sentença ou escritura do divórcio. O resultado: 13,8 anos em média, o mesmo de 2023. Em 2010, esse tempo era de aproximadamente 16 anos, segundo a Agência de Notícias do IBGE.
O mesmo levantamento mostra que, em média, os homens se divorciaram aos 44,5 anos e as mulheres aos 41,6 anos.
Antes de tirar conclusões, honestidade com o dado:
- É uma média dos casamentos que terminaram em 2024. Não diz quanto dura um casamento “normal” — a maioria dos casamentos que não acabaram nem entra nessa conta.
- Mede até a data do papel, não até o dia em que o casal se afastou. Muitas vezes a separação de verdade começou anos antes da assinatura.
- O próprio IBGE já alertou para possível subenumeração de divórcios na coleta de 2024 (falei disso no artigo sobre os 428 mil divórcios do ano).
Mesmo com essas ressalvas, o retrato é forte: os casamentos que acabam no Brasil não acabam, em geral, no sétimo ano. Acabam perto dos 14 — com os cônjuges na casa dos 40.
Então a “crise dos 7 anos” é mentira?
Não exatamente. É meia-verdade.
O sociólogo Hill Kulu analisou registros de casamentos na Finlândia num estudo publicado na revista Demography em 2014. Ele encontrou um padrão de “sobe e desce”: o risco de divórcio é baixo nos primeiros meses, sobe nos primeiros anos, chega ao pico por volta do quinto ano e depois vai caindo aos poucos — mas não some.
Repare: não é o sétimo ano, e não é uma data mágica. É uma fase. O encanto do começo vai embora, a rotina chega, aparecem filhos, contas, cansaço. Quem não aprende a atravessar essa fase fica mais vulnerável. Quem atravessa ainda não está “imunizado” — o risco continua, só que mais baixo.
O próprio título do estudo faz a pergunta certa: é uma coceira de sete anos ou uma coceira para a vida inteira? A resposta prática, para quem é casado, é a segunda. Não existe aniversário depois do qual você pode parar de cuidar.
O perigo do meio do caminho
Pensa no que normalmente está acontecendo na vida de um casal com 12, 14 anos de casamento:
- Filhos em idade escolar, agenda lotada, casa barulhenta.
- Carreira no pico de cobrança — ou em crise.
- Pais envelhecendo e precisando de cuidado.
- Conversas que viraram logística: quem busca, quem paga, quem leva.
Ninguém briga feio. Ninguém faz escândalo. Os dois só vão ficando ocupados demais um para o outro. E um dia um deles olha para o lado na cama e pensa: “Quem é essa pessoa?”
Eu chamo isso de desgaste silencioso. É muito mais perigoso do que a briga, porque a briga pelo menos chama a atenção. O desgaste não manda aviso.
A Bíblia tem uma imagem perfeita para isso: “Apanhai-me as raposas, as raposinhas, que devastam os vinhedos, porque as nossas vinhas estão em flor” (Cântico dos Cânticos 2.15). Não são os leões que destroem a vinha. São as raposinhas. Pequenas, rápidas, constantes. Um “depois a gente conversa” aqui, um celular na mesa ali, um aniversário de casamento esquecido, uma mágoa engolida sem ser tratada.
Deriva não faz barulho
O autor de Hebreus escreve: “importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos” (Hebreus 2.1). A ideia é de um barco que vai saindo do lugar sem ninguém perceber. Não teve tempestade. Só faltou âncora.
Casamento funciona igual. Ninguém acorda decidido a destruir a própria família. As pessoas vão se desviando — um grau por vez.
E aqui eu falo como alguém que já esteve do lado errado dessa história. Eu já fui o problema do meu casamento. A Vanessa deu uma chance pra Deus, e a confiança foi reconstruída tijolo por tijolo. Por isso eu não acredito em crise com data marcada. Acredito em cuidado diário — ou na falta dele.
O primeiro amor não volta sozinho
Jesus, falando à igreja de Éfeso, disse algo que serve demais para casais: “Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras” (Apocalipse 2.4-5).
Repare na ordem: lembra, arrepende, volta a praticar. Não é “espera o sentimento voltar”. É voltar a fazer o que você fazia quando amava sem esforço. O sentimento costuma vir depois da obediência, não antes.
Na prática, para um casal no meio do caminho, isso pode ser:
- Um encontro por semana, mesmo que curto. Sem filhos, sem celular, sem pauta de contas. Trinta minutos de café já contam.
- Uma pergunta de verdade por dia. Não “como foi o dia?”, mas “o que mais pesou em você hoje?”.
- Tratar a raposinha quando ela é pequena. Mágoa engolida vira muro. Falar com mansidão no mesmo dia é mais barato do que conversar daqui a cinco anos com um advogado no meio.
- Orar juntos, nem que seja um minuto. É difícil continuar distante de quem você coloca diante de Deus todo dia.
- Pedir ajuda antes do colapso. Pastor, casal mais velho, aconselhamento cristão. Procurar ajuda no ano 6 é sabedoria, não fraqueza.
Para quem já está cansado
Talvez você esteja lendo isso perto dos 10, 13, 15 anos de casamento e pensando: “Já fomos longe demais na deriva.”
Eu não vou te prometer que tudo se resolve em uma semana. Mas posso te lembrar de uma verdade: “As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade” (Lamentações 3.22-23).
Cada manhã. Não só no aniversário de casamento. Não só depois do sétimo ano. Toda manhã é uma chance nova de voltar.
E Paulo completa: “E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos” (Gálatas 6.9). Casamento é plantio de longo prazo. Quem planta pouco e desiste cedo colhe pouco.
O que levar daqui
- O casamento que acaba no Brasil dura, em média, 13,8 anos (IBGE, 2024). A crise não costuma ter cara de escândalo — tem cara de rotina.
- A “crise dos 7 anos” é meia-verdade: há fases de mais risco, mas não existe data depois da qual o casamento se cuida sozinho.
- O inimigo mais comum não é o leão. É a raposinha — o descuido pequeno, repetido.
- O caminho de volta é o de Apocalipse 2: lembrar, arrepender, voltar às primeiras obras.
Se o seu casamento está no meio do caminho e você sente que vocês viraram sócios de uma casa, comece hoje com um passo pequeno — e não caminhe sozinho.
Fontes
- Número de divórcios cai em 2024 após três anos de alta (Estatísticas do Registro Civil 2024) — Agência de Notícias IBGE, 10/12/2025
- Quantos anos dura um casamento no Brasil? Balanço do IBGE mostra também idade com que homens e mulheres se separam — O Globo, 10/12/2025
- Marriage Duration and Divorce: The Seven-Year Itch or a Lifelong Itch? — Hill Kulu, Demography 51(3), 881–893, 2014
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