98% das brasileiras mudam a rotina por medo da violência: a sua casa é refúgio ou mais um risco?
Pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva mostra que 98% das mulheres brasileiras adotam estratégias diárias para não sofrer violência e que seis em cada dez temem a violência doméstica. Ricardo Martins comenta o que isso cobra de todo homem casado.

O fato
Na semana passada, os institutos Patrícia Galvão e Locomotiva apresentaram, no Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a pesquisa Segurança das Mulheres: Percepção da Sociedade Brasileira sobre Violência. Segundo a Agência Brasil, 78% das mulheres dizem já ter sofrido pelo menos um tipo de violência e 98% adotam alguma estratégia no dia a dia para reduzir o risco — evitar certos lugares (90%), avisar alguém sobre os próprios deslocamentos (83%), deixar de sair à noite (83%). 45% já abriram mão de oportunidades de trabalho ou estudo por medo. O O Globo destacou ainda que a violência doméstica é temida por seis em cada dez brasileiras. Foram ouvidas 1.500 pessoas de 16 anos ou mais, em todas as regiões, com margem de erro de 2,8 pontos.
A partir daqui, é opinião minha — de pastor, de marido e de homem.
O número que me incomodou
Os números da rua me entristecem, mas não me surpreendem. Todo pai de menina sabe do que a pesquisa está falando. O que me tirou o sono foi a outra linha: seis em cada dez mulheres têm medo da violência doméstica.
Doméstica. Quer dizer: da casa. Do lugar para onde ela volta depois de passar o dia calculando trajeto, escondendo o celular e mandando localização para a amiga.
Pensa comigo. Uma mulher passa o dia inteiro em estado de alerta lá fora. Ela abre a porta de casa. E, para uma parte enorme das brasileiras, o alerta não desliga ali. Às vezes aumenta.
Eu não estou dizendo que seis em cada dez maridos são agressores — a pesquisa não diz isso, e eu não vou forçar o dado. Estou dizendo que o medo existe, é real, e que nós, homens, precisamos parar de tratar esse assunto como coisa “de outro tipo de homem”.
Violência não começa no soco
Quando se fala em violência doméstica, todo homem de igreja se tranquiliza: “eu nunca levantei a mão para a minha esposa”. Ótimo. Mas a violência raramente começa pelo tapa. Ela começa pelo tom. Pela porta batida. Pelo silêncio usado como castigo. Pelo controle do dinheiro, do celular, das amizades. Pela humilhação na frente dos filhos, “só brincando”.
A Bíblia não trata isso como detalhe de temperamento. Paulo foi direto:
“Maridos, amai vossa esposa e não a trateis com amargura.” (Colossenses 3:19, ARA)
E Pedro colocou a coisa num nível que deveria fazer qualquer homem cristão tremer:
“Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil, tratai-a com dignidade, porque sois, juntamente, herdeiros da mesma graça de vida, para que não se interrompam as vossas orações.” (1 Pedro 3:7, ARA)
Leia de novo o final. O jeito como você trata sua esposa em casa afeta a sua vida de oração. Tem homem que chora no culto e intimida em casa, e acha que Deus não liga a tela da sala com a tela do quarto. Liga.
Cabeça do lar não é dono da casa
Eu sei como parte da igreja lê Efésios 5. Pega o versículo da submissão e pula o resto. Mas o texto é claro sobre o padrão do homem:
“Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela.” (Efésios 5:25, ARA)
Cristo não governou a igreja pelo medo. Ele foi para a cruz por ela. Liderança, no Reino, é o homem que sangra primeiro, não o que grita mais alto. Se a sua esposa tem medo de você, você não está liderando. Você está ocupando.
Eu já fui o problema do meu casamento. Não escrevo isso de cima de um púlpito imaginário, olhando para os “homens ruins” lá embaixo. Escrevo como alguém que precisou ser confrontado por Deus e reconstruir confiança tijolo por tijolo. E aprendi que o primeiro tijolo é este: ela precisa se sentir segura perto de você.
A casa como refúgio
Isaías descreve o tipo de homem que Deus levanta:
“Cada um servirá de esconderijo contra o vento, de refúgio contra a tempestade, de torrentes de águas em lugares secos e de sombra de grande rocha em terra sedenta.” (Isaías 32:2, ARA)
Esse é o chamado. Lá fora, a sua esposa enfrenta uma cidade que a pesquisa mostra ser hostil para ela. A pergunta não é se você resolve a segurança pública — você não resolve. A pergunta é se, quando ela entra em casa, ela encontra sombra de grande rocha ou mais uma tempestade.
Três perguntas honestas para você fazer hoje, homem:
1. Ela pode discordar de mim sem medo? Se toda discordância vira briga, grito ou gelo de três dias, a casa não é segura. É tensa.
2. Ela tem liberdade ou tem permissão? Controle de celular, de dinheiro, de com quem ela fala — tudo isso tem nome, e não é “cuidado”.
3. Meus filhos relaxam quando eu chego ou ficam em alerta? Crianças são o termômetro mais honesto de uma casa.
Se alguma dessas respostas doeu, não se defenda. Arrependa-se. Peça perdão específico, sem “mas”. E procure ajuda: um pastor sério, um homem mais velho de confiança, um profissional. Arrependimento de verdade aceita ser acompanhado.
Uma palavra para a mulher que está lendo isso com medo
Se você tem medo de quem mora com você, ouça bem: o seu casamento não vale mais que a sua vida, nem que a vida dos seus filhos. O mesmo versículo que muita gente usa para dizer que Deus odeia o divórcio termina assim: “e também aquele que cobre de violência as suas vestes” (Malaquias 2:16, ARA). Nenhum texto das Escrituras manda você ficar exposta ao perigo em nome da submissão. Quem te disser isso está usando a Bíblia contra o próprio Deus da Bíblia.
Buscar segurança não é falta de fé. Se você está em risco, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou, em emergência, 190. Fale com alguém de confiança. Restauração, quando acontece, vem depois da segurança, nunca no lugar dela.
Fechando
A pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva descreve um país em que as mulheres vivem com o radar ligado. Nós, homens, não vamos mudar isso com hashtag. Mas cada marido cristão pode garantir que existe pelo menos um endereço no Brasil onde aquele radar pode, finalmente, desligar: o dele.
Esse é o tipo de homem que Legendários quer formar. Esse é o tipo de casa que Cristo quer construir.
Se você percebeu que o seu casamento precisa de um recomeço — começando por você —, o Guia de 21 Dias foi feito para isso: passos diários, práticos e com Cristo no centro, para reconstruir a confiança dentro de casa.
Fontes
Precisa de um plano pro seu casamento?
O Guia de 21 Dias é o passo a passo que Ricardo e Vanessa usam com casais em crise — um dia por vez, com Cristo no centro.
Conhecer o Guia de 21 DiasEste conteúdo é educacional e pastoral. Não substitui terapia, atendimento médico, jurídico ou ajuda emergencial. Em caso de violência ou risco imediato, procure ajuda agora.


