✦O Casal Legendáriopor Ricardo Martins & Vanessa Lima
Artigo

Como perdoar quando o outro não pede perdão

E quando o seu cônjuge nunca reconhece o erro? Ricardo Martins explica por que o perdão não depende do pedido de desculpas, o que perdoar não significa e como soltar a mágoa sem fingir que nada aconteceu.

Como perdoar quando o outro não pede perdão
ResumoVocê está esperando um “me perdoa” que nunca chega? Ricardo Martins mostra a diferença entre perdoar, confiar e reatar, o que a pesquisa diz sobre vingança, distância e boa vontade no casamento, e passos práticos para não deixar a raiz de amargura crescer.

Tem gente que passa anos parada na porta, esperando uma frase. “Me perdoa.” “Eu errei.” “Você tinha razão.” Só isso. Três palavras que nunca chegam.

O marido que gritou na frente dos filhos e no dia seguinte agiu como se nada tivesse acontecido. A esposa que humilhou na frente da família e nunca tocou no assunto. A palavra que cortou fundo e foi enterrada no “ah, você é muito sensível”.

E aí a pergunta aparece, honesta: como eu perdoo alguém que nem acha que fez algo errado?

Há poucos dias eu escrevi sobre como pedir perdão de verdade. Hoje é o outro lado da mesa. E eu quero começar com uma verdade que liberta: o seu perdão não está preso à boca do outro.

O perdão não depende do pedido

A gente costuma tratar o perdão como uma troca: você pede, eu concedo. Se você não pede, eu fico com a dívida guardada na gaveta, esperando a hora de cobrar.

Jesus não ensinou assim. Olha o que ele disse sobre a oração:

“E, quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas.” (Marcos 11.25, ARA)

Repare: não tem “se ele vier pedir”. Tem “se tendes alguma coisa contra alguém”. O ponto de partida é o que está dentro de você, não o que saiu da boca dele.

E Jesus fez exatamente isso na cruz. Ninguém ali estava arrependido. Os soldados jogavam dados pela roupa dele. E mesmo assim:

“Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lucas 23.34, ARA)

Perdoar é uma decisão unilateral. Você pode tomá-la hoje, sozinho, de joelhos, sem que o outro saiba.

O que perdoar NÃO significa

Muita gente não perdoa porque acha que perdoar é aprovar. Não é. Vamos separar as coisas, porque misturar tudo é o que mantém tanta gente presa:

  • Perdoar não é dizer que não doeu. Doeu, e você pode dizer isso.
  • Perdoar não é fingir que não aconteceu. O perdão olha para a ofensa de frente e decide não cobrar a dívida.
  • Perdoar não é confiar de novo automaticamente. Confiança se reconstrói com tempo e atitude; perdão se decide.
  • Perdoar não é reatar a qualquer custo. A reconciliação plena precisa de arrependimento do outro lado.

Jesus mesmo ensinou essa diferença:

“Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe.” (Lucas 17.3, ARA)

Existe a repreensão — falar a verdade. Existe o arrependimento — que é responsabilidade dele. E existe o perdão — que é a sua parte. Você não controla a segunda etapa. Mas não precisa ficar refém dela.

E uma palavra séria: se existe violência, ameaça ou abuso dentro de casa, perdoar não significa continuar exposto ao perigo. Você pode perdoar e, ao mesmo tempo, se proteger e buscar ajuda. Uma coisa não cancela a outra.

O que a pesquisa descobriu sobre perdão no casamento

Pesquisadores costumam descrever o “não perdão” em dois movimentos: a vontade de revidar e a vontade de se afastar. E o perdão como um terceiro: a boa vontade em relação a quem nos feriu.

O psicólogo Frank Fincham e colegas aplicaram esse olhar a casais casados em dois estudos publicados no Journal of Family Psychology. O que eles encontraram foi que a vontade dos maridos de revidar ou de se afastar estava associada a uma resolução de conflitos pior, segundo as esposas, enquanto a boa vontade das esposas estava associada a uma resolução melhor, segundo os maridos — e isso independentemente de quão satisfeitos os casais estavam com o casamento.

É um estudo de associação, não uma prova de causa. Mas ele confirma o que eu vejo toda semana: a mágoa não resolvida não fica parada. Ela vira revide ou vira distância. O revide é a alfinetada, a ironia, o “lembra quando você…”. A distância é o quarto em silêncio, a cama dividida ao meio, o coração trancado. As duas coisas destroem a conversa do casal antes mesmo de ela começar.

A raiz que cresce no escuro

A Bíblia tem uma imagem perfeita para isso:

”…nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados.” (Hebreus 12.15, ARA)

Raiz é coisa que cresce escondida. Ninguém vê. Mas um dia ela racha a calçada. A mágoa que você guarda esperando o pedido de perdão não machuca o outro — ele, muitas vezes, nem lembra. Ela machuca você. E contamina “muitos”: os seus filhos, que crescem num clima pesado; as suas conversas; a sua oração.

Eu já ouvi gente dizer: “Se eu perdoar, ele vai sair impune”. Não vai. Você só está tirando a justiça das suas mãos e colocando nas mãos certas:

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor.” (Romanos 12.19, ARA)

Pedro diz que Jesus, quando maltratado, “entregava-se àquele que julga retamente” (1 Pedro 2.23, ARA). Perdoar é isso: entregar o processo para o Juiz certo.

Como perdoar na prática, sem o pedido

Perdão não é sentimento que cai do céu. É uma decisão que você renova até o sentimento acompanhar. Alguns passos que funcionam:

1. Dê nome à dívida. Escreva, de forma específica, o que ele (ou ela) fez e o quanto custou para você. Você não perdoa o que não admite que doeu.

2. Leve a lista para Deus, não para o grupo da família. Ore com ela na mão. Diga: “Senhor, isso foi real. E eu decido não cobrar mais essa dívida. Eu entrego para o Senhor.”

3. Fale a verdade uma vez, sem cobrar. Se for possível e seguro, diga com calma: “Aquilo me feriu. Eu escolhi te perdoar. Mas preciso que você saiba.” Sem ultimato, sem plateia. A reação dele é problema dele.

4. Corte o revide pequeno. Fique atento às alfinetadas, ao tom, ao comentário na frente dos outros. É ali que a dívida volta a ser cobrada sem você perceber.

5. Não confunda limite com rancor. Você pode perdoar e dizer: “Esse tipo de conversa eu não vou aceitar mais”. Limite protege; rancor envenena.

6. Repita quantas vezes for preciso. Quando a lembrança voltar — e ela vai voltar — perdoe de novo. Não é falta de fé. É o caminho.

Você não precisa esperar a porta abrir

Eu já fui o problema do meu casamento. E sei que restauração não é mágica: confiança se reconstrói tijolo por tijolo. Mas o primeiro tijolo, muitas vezes, é colocado por alguém que decide parar de esperar e soltar a dívida antes de receber o pedido.

Talvez o seu cônjuge nunca diga as três palavras. Talvez diga daqui a dez anos. Você não controla isso. Mas pode decidir, hoje, que a amargura não vai mais morar na sua casa.

“Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou.” (Efésios 4.32, ARA)

Ninguém aqui pediu perdão a Deus primeiro. Foi ele que veio primeiro. É desse perdão que a gente tira força para perdoar quem nunca pediu.

Fontes

  1. Fincham, F. D., Beach, S. R. H. & Davila, J. (2004). Forgiveness and Conflict Resolution in Marriage. Journal of Family Psychology, 18(1), 72–81 — Journal of Family Psychology (APA)
perdãomágoaamarguracasamento cristãorestauração do casamento
Ricardo Martins

Ricardo Martins

Ricardo Martins é escritor, pastor e porta-voz do movimento Legendários. Ao lado da esposa, Vanessa Lima, criou O Casal Legendário, que alcança milhões de pessoas com conteúdo sobre casamento cristão e restauração. Autor de "Quando o amor recomeça" (Citadel, 2026).

Precisa de um plano pro seu casamento?

O Guia de 21 Dias é o passo a passo que Ricardo e Vanessa usam com casais em crise — um dia por vez, com Cristo no centro.

Conhecer o Guia de 21 Dias

Este conteúdo é educacional e pastoral. Não substitui terapia, atendimento médico, jurídico ou ajuda emergencial. Em caso de violência ou risco imediato, procure ajuda agora.