Quase 1,7 milhão de crianças registradas sem o nome do pai em dez anos: um recado para os homens do Brasil
Levantamento da Arpen-Brasil mostra que 1.666.882 crianças foram registradas só com o nome da mãe entre 2016 e 2026 — mas os reconhecimentos espontâneos de paternidade estão crescendo. Ricardo Martins comenta o que isso diz sobre os homens, o casamento e o coração de Deus.

O fato
Em 16 de setembro, a Associação dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), que reúne os cartórios de registro civil, divulgou um levantamento feito a partir do painel “Pais Ausentes” do Portal da Transparência do Registro Civil. Segundo os dados, entre 31 de julho de 2016 e 31 de julho de 2026, 1.666.882 crianças foram registradas no Brasil apenas com o nome da mãe. Nos últimos cinco anos, a média foi de cerca de 175 mil crianças por ano; só em 2025 foram 174.122.
O mesmo levantamento traz uma notícia boa: os reconhecimentos espontâneos de paternidade nos cartórios subiram de 24.667 em 2021 para 36.835 em 2025, e até o fim de julho de 2026 já eram 28.364 — ritmo que pode bater o recorde. Desde 2021, 193.339 brasileiros passaram a ter a paternidade reconhecida oficialmente.
A partir daqui, é opinião minha — de pastor, de pai e de homem que já foi o problema do próprio casamento.
Antes de tudo: isso não é sobre as mães
Quero deixar uma coisa muito clara, porque sei que tem mãe solo lendo este texto. Esse número não é uma acusação contra você. Muitas de vocês seguraram sozinhas o que era para ser carregado por dois. Criaram, sustentaram, levaram ao médico, perderam noites. Deus vê isso. Eu vejo isso.
E existem situações em que a ausência do nome do pai foi uma escolha de proteção — casos de violência, de ameaça, de risco real. Segurança vem primeiro. Nada neste texto é um convite para você se expor a perigo.
Também é honesto dizer: nome na certidão não é o mesmo que pai presente. Tem criança com o nome do pai no papel e nenhum pai na vida. E tem avô, tio, padrasto que virou pai de verdade sem nunca aparecer no documento. O dado mede o registro, não o amor.
Dito isso: 1,7 milhão de certidões com um espaço em branco é um retrato. E o retrato é de homens que não apareceram.
Um espaço em branco que fala alto
Eu fico pensando nesse campo vazio. A criança cresce, precisa do documento para a escola, para o posto de saúde, para tirar o RG. E toda vez que alguém olha aquela certidão, o papel repete uma frase que ela não pediu para ouvir: “ele não quis estar aqui.”
Não sou psicólogo e não vou fingir que sou. Mas caminhar com casais em crise me ensinou uma coisa: a ferida do pai ausente não fica na infância. Ela entra no casamento. Aparece no homem que não sabe ser marido porque nunca viu um. Aparece na mulher que desconfia de todo homem porque o primeiro que deveria ficar foi embora. Aparece no filho que repete exatamente o que jurou nunca repetir.
A Bíblia fecha o Antigo Testamento com uma promessa que parece ter sido escrita para o Brasil de hoje:
“Ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição.” (Malaquias 4:6, ARA)
Repara na ordem. Primeiro o coração dos pais volta. A restauração da família começa pelo homem.
O homem que foge e o homem que volta
Eu já fui um homem que estava fugindo — não da certidão, mas do meu próprio casamento. Eu já fui o problema. Por isso eu não escrevo isto de cima para baixo, como quem nunca errou. Escrevo como alguém que sabe que dá para voltar, porque Deus me trouxe de volta e a Vanessa Lima deu uma chance para Deus agir. A confiança foi reconstruída tijolo por tijolo.
E é por isso que a segunda parte da notícia me emocionou mais que a primeira. Trinta e seis mil pais, em 2025, entraram num cartório por vontade própria para dizer: “esse filho é meu.” Ninguém obrigou. Muitos provavelmente chegaram atrasados — anos atrasados. Mas chegaram.
Isso me lembra o pai da parábola do filho pródigo:
“E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou.” (Lucas 15:20, ARA)
O pai de Lucas 15 é o retrato do coração de Deus. E todo homem que volta para assumir um filho está, sem saber, imitando esse Pai que corre.
Para você, homem, que está lendo isto
Se você tem um filho que não carrega o seu nome — no papel ou na vida — eu não vou te dar sermão de coach. Vou te dizer o que eu diria olhando no seu olho:
- Pare de se esconder atrás da vergonha. Vergonha é o lugar onde o inimigo guarda os homens para eles nunca voltarem. Cristo levou a sua culpa na cruz; você não precisa carregar ela como desculpa.
- Procure informação séria. Segundo a Arpen-Brasil, o reconhecimento voluntário é gratuito, pode ser feito em qualquer cartório de registro civil do país e, desde 2026, pode ser iniciado pela internet. Para a sua situação específica, procure o cartório ou um profissional — eu sou pastor, não advogado.
- Entenda que papel é o começo, não o fim. Reconhecer é o primeiro passo. Depois vem aparecer, pedir perdão, ser constante. Filho não precisa de um pai perfeito; precisa de um pai que fica.
- Se você é casado, leve isso para dentro de casa com verdade. Segredo destrói casamento. Verdade dói, mas é o único chão onde dá para reconstruir.
E aos pais que estão dentro de casa, com o nome na certidão, mas com o coração no celular, no trabalho, no futebol: a ausência também mora debaixo do mesmo teto.
“E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor.” (Efésios 6:4, ARA)
Para quem cresceu com o espaço em branco
Se você é o filho dessa estatística, eu quero que você saiba de uma coisa: a sua identidade não depende de um campo preenchido num documento. A Palavra diz:
“Pai dos órfãos e juiz das viúvas é Deus em sua santa morada.” (Salmo 68:5, ARA)
E Paulo escreve que recebemos “o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Romanos 8:15, ARA). Existe um Pai que nunca te abandonou e que te chama pelo nome. Isso não apaga a dor — mas dá a ela um lugar para ser curada, no tempo de Deus, muitas vezes com ajuda de pastores e profissionais que caminham com você.
O Brasil precisa de homens que fiquem
Esse é o coração do movimento Legendários e de tudo o que eu e a Vanessa Lima fazemos em O Casal Legendário: homens que param de fugir, assumem responsabilidade e se tornam pais e maridos presentes. Não por obrigação, mas porque foram alcançados por um Pai que ficou.
Se o seu casamento está balançando e você sabe que parte do problema é você, comece hoje. O Guia de 21 Dias foi feito exatamente para isso: um passo por dia para trazer Cristo de volta ao centro da sua casa.
Fontes
- Quase 1,7 milhão de crianças foram registradas sem o nome do pai em dez anos — Arpen-TO (dados Arpen-Brasil)
- Portal da Transparência do Registro Civil — painel Pais Ausentes — Arpen-Brasil
Precisa de um plano pro seu casamento?
O Guia de 21 Dias é o passo a passo que Ricardo e Vanessa usam com casais em crise — um dia por vez, com Cristo no centro.
Conhecer o Guia de 21 DiasEste conteúdo é educacional e pastoral. Não substitui terapia, atendimento médico, jurídico ou ajuda emergencial. Em caso de violência ou risco imediato, procure ajuda agora.


