SOU CASADA E ME ENVOLVI COM OUTRA PESSOA

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Antes de começar, gostaria de relembrar que este espaço não é um consultório de psicologia virtual. Apesar de estudar psicologia e ter consciência de que meus aprendizados influenciam nos textos que escrevo, o trabalho que faço aqui está muito longe de ser um atendimento terapêutico. Não se trata de um trabalho profissional, mas de um ser humano que encontra alegria em escutar e ajudar. Quando criei o site Salve Meu Casamento, imaginei um bate-papo entre amigos numa sala de estar. Um local informal de acolhimento, simples assim. Posto isto, vamos ao caso.

Na semana passada recebi dois e-mails com conteúdos muito parecidos, por isso decidi escrever. Mulheres casadas, cristãs, com filhos, envolvidas em trabalhos da igreja e de repente, em um dado momento da vida, se veem apaixonadas e envolvidas por outra pessoa. Relatam a sensação de aprisionamento, vontade de se libertar e não conseguir, mesmo diante de grandes esforços. Falam sobre o amor pelo marido, o desejo de manter sua família e a total consciência do erro e dos possíveis prejuízos. Leio depoimentos desse tipo há quase oito anos e, o interessante, é que a descrição é sempre a mesma: uma sensação de estar preso a algo que não gostaria de estar e ter perdido completamente o controle e a razão. Normalmente são pessoas muito centradas, que buscam viver de forma correta, cuidando da família e ministério e então, quando menos esperam, se percebem totalmente fora do seu controle habitual. E sofrem muito com isso.

Sempre pensei muito nisso, muito mesmo. Como acontece? Existe um motivo? Uma predisposição? Como pessoas que buscam viver da forma correta dentro daquilo que acreditam perdem a razão tão facilmente, mesmo amando o cônjuge? Cansada das respostas superficiais de sempre, procurei conversar com pessoas e profissionais diversos no decorrer desses anos. Li materiais cristãos e científicos. Nessa caminhada, percebi que as respostas mudam drasticamente de acordo com o lugar que se busca ajuda. Um psicólogo, por exemplo, poderia quem sabe orientar essa pessoa a questionar o porquê de insistir em permanecer em uma relação que não a satisfaz sexualmente. Já um cristão fundamentalista, provavelmente ofereceria as típicas respostas clichês: adultério e divórcio são pecado, você precisa tomar uma posição e ponto final. Um outro cristão mais espiritualizado, talvez adote o discurso de que a paixão fora do casamento é uma armadilha do diabo e que o indivíduo precisa de libertação. Já um psicanalista, poderia afirmar que a paixão cega e avassaladora está relacionada às forças libidinais do inconsciente e que a pessoa em questão tem um superego extremamente exigente… E por aí vai.

Pois bem, diante de tantas possibilidades, que caminho seguir? Partindo do princípio de que este é um blog fundamentado num cristianismo equilibrado e que as pessoas que me contatam creem dessa forma, é nesse terreno que escolho pisar.

Na caminhada cristã vi alguns milagres acontecendo, inclusive na minha vida. Talvez alguns ateus rotulem esses fenômenos como “acaso ou coincidência”, mas gente, o que já vi acontecer comigo e com pessoas próximas, deixam o tal do acaso no chinelo! Mas também é certo que, se fôssemos fazer uma estatística entre cristãos (católicos e protestantes), constataríamos que o número de milagres ocorridos em situações difíceis é infinitamente menor do que o número de não-milagres. Ou seja, concluo que o Deus que nós cremos não trabalha fundamentado na lógica do milagre. Se assim fosse, isso seria tão rotina que nem chamaríamos mais de milagre, concorda? O que me preocupa no discurso espiritual extremista, onde se afirma que tudo de ruim que acontece na vida de uma pessoa é armadilha do mau e que a solução é uma oração forte ou ungida (chame como quiser), é que isso nos torna adoradores de milagres e não do Deus que pode realizar milagres, entende?

Acho muito mais saudável viver a simplicidade do Evangelho de Jesus sem o endeusamento do milagre. E digo isso porque vejo muitos fiéis mais dependentes de uma relação com o fenômeno sobrenatural do que com o Deus que nos acompanha no natural. Então, diante de um problema como o colocado no início do texto, acho que você deve orar sim. Exercite a sua fé e até clame por um milagre! Mas lembre-se que Deus pode agir também através de um médico, de um amigo, de um medicamento, uma leitura, um derramar de lágrimas ou quem sabe até através do sorriso de uma criança. Aliás, penso que é através dessa maneira que Ele mais gosta de agir…

Sei que diante de uma confissão de adultério ou paixão fora do casamento muitos se levantariam no sentido de um apedrejamento verbal: Pecadoras! Adúlteras! Mas estes religiosos hipócritas são os mesmo que estão presos a muitos outros tipos de algemas: maledicência, pornografia, compulsão por compras, por comida, vícios em jogos, fofocas, necessidade de aprovação social, soberba, egoísmo, narcisismo, ansiedade, agressividade, perfeccionismo, exibicionismo e por aí vai. Então, em primeiro lugar, é preciso exercitar a consciência de que ninguém é pior ou melhor do que ninguém no que diz respeito a fraquezas. Estamos todos na mesmíssima condição. A única diferença são os tipos de fraquezas, e só.

Tem um versículo bíblico que gosto muito e se encaixa bem aqui, uma analogia feita por Jesus:

Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo. O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado. (Lucas 18: 10-14)

Muitos religiosos que se acham santos demais adoram apontar o dedo em direção aos outros, como forma de exaltar a sua santidade. A bíblia diz que não há um justo sequer, nenhum! Todos somos falhos, fracos e dependentes da graça de Deus. Sim, nossa fé nos leva a uma busca por uma vida mais equilibrada, por um cuidado com as nossas palavras e ações. E acho que deve ser assim mesmo, mas o detalhe é que jamais teremos o controle de tudo. Uma hora ou outras cairemos, falharemos e daremos de cara com a nossa humanidade perdida:

Eu quero muito ser uma esposa fiel, estou lutando pra isso, mas não consigo! Eu quero muito não falar mal das pessoas, mas não consigo. Eu quero muito não ter pensamentos suicidas, mas não consigo. Eu quero muito não ser compulsivo por comida ou compras, mas não consigo. Eu quero muito não ter medo, mas não consigo. Eu quero muito não ser agressivo, mas não consigo. Eu quero muito não ser dependente das redes sociais, mas não consigo. Eu quero muito não sentir prazer com a dor do outro, mas não consigo.

Essa lista é infinita! E o texto bíblico de Lucas me emociona muito, pois fala exatamente de um publicano (marginalizado da época), dizendo que deseja ser melhor, mas não consegue, em contradição a um religioso orgulhoso que bate no peito dizendo em voz alta: Eu consigo! Ou seja, nesta analogia, o publicano admite que o poder de transformação não está em suas mãos, enquanto que o religioso afirma o oposto. E é nesse ponto que queria de chegar. As mulheres que me contataram, assumindo o seu forte desejo de mudança em combate com a sua não capacidade, a colocam exatamente na posição do publicano do texto de Lucas, ou seja, na posição em que Deus quer que elas estejam, a de assumir sua incapacidade e buscar ajuda. E ajuda de quem? De Deus em primeiro lugar, que muito provavelmente vai agir na sua vida através de um amigo fiel, um médico, um conselheiro, um psicólogo… e talvez, até quem sabe, de um milagre!

Sim, talvez você esteja até pensando que eu deveria aconselhar as mulheres em questão a cortarem contato com o fulano, mudando número de celular, saindo da empresa e etc. Acontece que, o que observo na maioria esmagadora dos casos onde já houve o envolvimento (e há reciprocidade de sentimento), nenhuma dessas tentativas alcançam sucesso. Um fracasso atrás do outro. É aí que entra a sensação de aprisionamento. Foi por isso escolhi seguir a lógica do pensamento acima…

Bem, continuando, hoje mesmo conversava em sala de aula sobre o ideal de almejar acertar o alvo em 100% do tempo (um ideal surreal, diga-se de passagem). Ninguém acerta em 100% do tempo e ok que seja assim. Algumas vezes acertaremos mais, outras menos e, ter essa consciência nos faz viver mais leve. O importante é saber aonde se quer chegar e trabalhar neste sentido. Tem uma frase dita pelo Gato, no filme Alice no país das maravilhas, que gosto muito: Se não se sabe onde quer ir, então qualquer caminho serve. As mulheres que me buscaram pedindo um conselho tinham um objetivo certo fundamentado em sua fé: apesar da paixão avassaladora, desejavam manter seu casamento e sua família. Diante disso, podemos dizer que, para que se alcance este objetivo, a relação extraconjugal não poderá permanecer, obviamente. Ou seja, já temos um caminho a seguir: lutar pelo fim dessa nova paixão. E se já chegamos a conclusão de que sozinhos não somos capazes e que, dentro da nossa fé, é exatamente essa consciência que Deus espera de nós, o negócio é:

Faça a sua parte e se entregue totalmente aos cuidados do nosso Deus. Descanse. E o que significa fazer a sua parte? Penso que o primeiro passo (como falado anteriormente) seja compartilhar a sua angústia com alguém de extrema confiança. Vejo na Bíblia e nas experiências vividas, algo de curador neste processo:

Confessem suas culpas uns aos outros, e orem uns pelos outros, para que sejam curados. Tiago 5:16

Lembrando da analogia das flechas (adoro analogias!) é como se diante de uma flecha que se perdeu e foi para longe do alvo, Deus pegasse em nossas mãos e nos ensinasse com todo o seu amor: É assim que faz, vamos juntos? Isso, muito bem! Agora vai sozinho, tente de novo. E é nesse processo de tentativas e erros que aprendemos, nos desenvolvemos, amadurecemos e crescemos como seres humanos. Com a consciência da humanidade falha, mas caminhando sempre em direção ao alvo. Talvez você pense que não há esperança para um casal que chegou nesse ponto, mas temos muitos testemunhos que dizem o contrário. Aqui no blog mesmo, nosso texto mais comentado: Depois de uma traição, a reconstrução

Pois bem, encerro nosso papo por aqui. Não acho que sou a dona da razão e que o que escrevi é uma verdade universal e absoluta. Também não acho que esse conselho vá resolver o problema de todas as pessoas que estão em relações extraconjugais. Muito pelo contrário! As pessoas são únicas e os processos são únicos. Mas penso que, diante da dor da escuridão em que se encontram, talvez esse texto represente um copo d’água em meio ao calor insuportável do deserto. Apenas um pequeno alento que as ajude a prosseguir em direção a solução de suas questões.

 

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2 Comentários

  1. Saiba que vc tem uma fã de são luis do ma. Sempre dou uma passada por aqui para ver se saiu texto novo. parabéns pela escrita. Deus te abençoe.

  2. Olá, nossa que alegria que você voltou a escrever!
    Suas palavras transmitem paz e edificação, além da sensibilidade e inteligência que sempre ficam evidentes nos textos, aprendo muito por aqui, Glória Deus por sua disposição em querer ajudar e aconselhar. Bjinhos!

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