POR QUE PARA OS CRISTÃOS SEXO ANTES DO CASAMENTO É CONSIDERADO PECADO?

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Este trabalho é desenvolvido com base na fé cristã e por isso os assuntos serão abordados sob esta perspectiva. Críticas ofensivas e sem fundamento serão automaticamente desconsideradas.

Antes de iniciar, um esclarecimento. Você conhece o significado das palavras  fundamentalismo e conservadorismo? Fundamentalista é aquele sujeito que acha que sua cultura ou crença é superior a todas as outras, por isso além de não se abrir para escutar o outro, trabalha para eliminá-lo. É o caso dos nazifascistas, por exemplo. Já o Conservador é aquele sujeito que julga sua cultura ou crença superior as outra. Não se esforça para eliminar o diferente, mas também não se abre (de forma alguma!) para escutar ou conhecer outras formas de pensar, outras crenças ou culturas. E existe um terceiro comportamento que chamamos de “enraizamento”. Esse sujeito tem plena convicção no que acredita e, se perguntarem a razão da sua fé, saberá o que dizer, mas não vê problema algum em escutar outras formas de pensar, em entender outras crenças e culturas.

Pois bem, a nossa conversa seguirá na linha desse terceiro comportamento. Agora vamos em frente!

Em uma pesquisa¹ feita pela BEPEC com mais de 1,6 milhões de evangélicos, constatou-se que aproximadamente 67% dos evangélicos solteiros já haviam praticado sexo. Quantidade significativa não? Isso mostra que o tradicional discurso “transar antes do casamento é pecado” parece não estar surtindo muito efeito…

Tenho imensa dificuldade com respostas rasas e mais dificuldade ainda com afirmações sem explicações bem fundamentadas. Deus nos fez seres pensantes, aliás, é exatamente isso que nos faz diferentes das outras espécies, a capacidade de raciocinar. Entre o falar e o executar, é importante existir o pensar. Quando escuto a afirmação: “Sexo antes do casamento é pecado?” e não me dou o trabalho de questionar “Por que? Tem fundamento? O que significa pecado?”, corro o risco de estar sendo enganado e, portanto, prejudicado em muitas áreas da vida.

Já escutou em algum lugar a frase: “Me obedeça porque sou seu pai/mãe!”? Quando um adulto fala dessa forma e não justifica os motivos da necessidade da obediência, está subestimando a inteligência do seu filho. É como se dissesse: “Você não é capaz de entender, por isso apenas obedeça sem questionar!” É exatamente isso que acontece quando líderes religiosos dizem a comunidade: “Obedeçam porque é pecado!” sem oferecer alguma justificativa bem fundamentada. Dessa forma estão comunicando nas entrelinhas que a comunidade não tem capacidade de entender ou que seria perigoso se começassem a raciocinar e questionar. O que não é verdade.

Faça uma busca rápida e verá que a internet está recheada de textos a respeito do sexo antes do casamento. Antes de escrever esse artigo me dei ao trabalho de ler algumas dezenas deles e o que mais me assusta é perceber que em sua grande maioria os textos trilham o mesmo caminho da lógica sem lógica evangélica: “Sexo antes do casamento não pode porque é fornicação e imoralidade. E imoralidade e fornicação são atos pecaminosos.”. Ok, certo, mas o que significa exatamente fornicação e imoralidade? O que um ato precisa ter pra se tornar pecaminoso?

Bem, vamos por partes. Antes de tudo precisamos entender o que significa casamento segundo a perspectiva Bíblica. Quando falamos em compromisso de casamento logo lembramos do texto de Gêneses 2:24: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne.” . O homem deixa pai e mãe, se une a sua mulher e então eles se tornam uma só carne, ou seja, desenvolvem uma intimidade profunda (não apenas na área sexual). Vale lembrar que a questão de deixar pai e mãe vai muito além do sair da casa dos pais, mesmo porque naquela época – e ainda hoje em algumas culturas – não se sai da casa dos pais. Na verdade, deixar pai e mãe significa se desvincular da antiga família, formar uma nova e assumir responsabilidade sobre ela (e que responsabilidade!). Existem casais que estão unidos há anos, moram em endereço diferente dos pais, mas ainda não deixaram pai e mãe emocionalmente. Vocês já imaginam o estrago que isso causa não?

Agora, pra entender o tal do “se unir” precisamos antes dar um pulo rápido no mundo antigo. Nos tempos Bíblicos o casamento era uma celebração entre familiares e amigos. Nas bodas de Caná, por exemplo, não se fala de noiva entrando no templo de branco, dama de honra, padrinhos e sacerdote abençoando a união. Adão e Eva não estavam menos casados por não terem tido testemunhas humanas. Isaque quando viu Rebeca no campo sendo trazida pelo servo de seu pai, correu ao encontro de ambos, tomou a Rebeca sobre sua montaria e a levou direto para a tenda de sua mãe. É claro que houve acordo antecipado entre as famílias. O rala e rola na tenda foi apenas a consumação do compromisso pré-estabelecido. Então, quando falamos de casamento no contexto Bíblico, não podemos pensar na cerimônia nos moldes de hoje. Mas é certo que, de uma forma ou de outra, com tenda ou sem tenda, com sacerdote ou sem, a importância do compromisso é indiscutível. Se a carta de divórcio é citada, é porque existiu antes um documento de união. E textos bíblicos que ressaltam a importância do casamento não nos faltam, aí vão alguns: 1 Coríntio 7; Hebreus 13.4; Romanos 7: 1 a 3; Mateus 19.

Além disso, naquela época não existia namoro, aliás, o namoro que temos hoje é um fenômeno muitíssimo recente. Nos tempos bíblicos (e até pouco tempo atrás) os pais dos noivos entravam em acordo a respeito da união de seus filhos, marcavam o dia do festão e os noivinhos consumavam o compromisso através da união sexual. Eles não tinham oportunidade de tempo a sós, por isso não encontramos na Bíblia nenhuma citação a respeito do sexo durante o namoro/noivado. O que vemos são apenas passagens a respeito de adultério e prostituição. Também não se fala sobre a virgindade em si, apenas a respeito da virgem como indivíduo.

Sabe, acho muito importante para a saúde espiritual e emocional o hábito de pesquisar os contextos históricos e sócio-culturais quando nos dispomos a debater sobre algum tema. Existem muitas coisas que naquela época faziam todo sentido, mas que hoje não fazem mais. Já pensou se fôssemos obedecer a risca as mais de 600 leis do Antigo Testamento que foram dadas a um povo específico e em um recorte de tempo? A galerinha que hoje estuda anatomia prática estaria destinada ao inferno, por exemplo. As mulheres menstruadas que cozinham e os milhares de homem cristãos que cortam suas barbas seriam considerados um bando de pecadores. Muitas leis bíblicas caducaram porque não foram destinadas a nós, os cristãos dessa época.

Precisamos sempre tomar o cuidado de entender o que, quando e para quem foi dito antes de chegar a alguma conclusão e pior, passar essa conclusão pra frente. Se desejamos a saúde da nossa sociedade e das comunidades cristãs em geral, precisamos reivindicar um argumento bem fundamento para cada afirmação proclamada. E por que? Por que se não fizermos disso um hábito, continuaremos a encontrar em nosso cenário religioso casos como o das esposas que não fazem sexo três dias antes e três dias depois da menstruação porque o pastor disse que não pode. Ou então casais que oram pedindo perdão depois do sexo, porque o líder da igreja afirmou que sexo é sujo. E falo aqui de casos que acompanhei, e não do que ouvi falar.

Bem, posto isso, podemos passar aos temas fornicação e imoralidade sexual.

O termo fornicação vem do latim fornicari (manter relações sexuais) e de fornix (arco, câmara com teto curvo), local onde as prostitutas na antiga Roma trabalhavam, sob os arcos de prédios públicos. A partir desse esclarecimento, acho bem complicado relacionar fornicação ao ato sexual entre namorados ou noivos, por exemplo, porque acabamos de ver que esta palavra se refere a comercialização do sexo, a venda do corpo em troca de dinheiro, a prostituição.

Já a palavra imoral vem do Latim immoralis, formada por in (não) + moralis (conduta adequada de uma pessoa em sociedade, literalmente “relativo aos modos, às maneiras”). Podemos concluir então que a expressão imoralidade sexual está relacionada a uma conduta inadequada na área sexual. E, como estamos  falando nesse artigo “a partir de” e “para” um grupo social específico, que possui na Bíblia suas regras de moral e conduta, podemos afirmar que para os cristãos o sexo fora da aliança do casamento pode ser considerado um ato de imoralidade sexual, pois foi criado para ser desfrutado dentro da aliança do casamento. Quanto a isso não restam dúvidas. E vamos combinar que o sexo egoísta praticado sem amor DENTRO DO CASAMENTO também pode ser considerado imoralidade sexual, pois vai na contramão da mais importante regra deixada por Cristo, onde baseiam-se todas as outras: O AMOR.

Aliás, pego já um gancho importantíssimo. Então o que pode ser considerado pecado? Segundo Romanos 13.10 tudo aquilo que for no sentido contrário ao maior mandamento deixado por Jesus: O AMOR. “O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor.” Pronto, simples assim.

“Mas e se o ato sexual não infringir a lei do amor? E se eu fizer sexo com alguém que amo realmente mesmo sem estar casado?”

Antes de dar a resposta preciso passar pela parte fisiológica.

Observe o que acontece no cérebro durante a relação sexual:

“Um hormônio chave liberado durante o sexo é a oxitocina, também conhecida como o hormônio do amor. Ele baixa nossas defesas e nos faz confiar mais nas pessoas, de acordo com Arun Ghosh, especialista em saúde sexual no Spire Liverpool Hospital. Ele também é a chave para a conexão entre as pessoas, pois aumenta os níveis de empatia. Mulheres produzem mais desse hormônio, apesar de não estar claro por que, e isso significa que elas são mais propensas a baixar a guarda e se apaixonar pelo parceiro após a relação sexual. O problema é que o corpo não pode diferenciar se a pessoa com quem estamos está interessada em algo mais sério ou apenas em sexo casual, já que a oxitocina é liberada nos dois casos. Então, enquanto o hormônio pode ajudar a encontrar o amor da sua vida, também pode ser o motivo para você ficar arrasada quando uma relação curta com aquele cara que você está adorando acaba. Já os homens, por outro lado, em vez de darem início a uma onda de hormônios do apreço, recebem uma onda de puro prazer. Quando um homem tem um orgasmo, o principal hormônio liberado é a dopamina, o hormônio do prazer. E isso pode ser viciante – diz Ghosh. É por isso que muitos homens tendem a sofrer de vício em sexo.”²

Além disso nosso sistema nervoso trabalha através de algo que podemos chamar de “sistema de recompensa”. Quando alguma situação nos desperta sentimentos e sensações, a experiência é encaminhada para o nosso arquivo de memórias de longo prazo. Portanto, se mantenho relações ou carícias íntimas com alguém, o que obviamente despertará uma série de sensações e sentimentos, uma área específica (ligada a outras) ativa esse sistema de recompensa e registra que aquele ato relacionado àquela pessoa lhe gerou prazer. É o mesmo sistema do vício em jogos ou em comida, por exemplo, onde o grande protagonista é um neurotransmissor chamado dopamina, um dos responsáveis pela sensação de prazer. Mas no caso do sexo a “brincadeira” é mais perigosa, pois temos um outro ser humano em jogo. Se a fulana X se relaciona intimamente com fulano N, mesmo que sejam apenas algumas carícias, um registro definitivo é feito em ambos os cérebros. Os dois tornam-se então fulana X com o registro N e fulano N com registro X. E se o namoro/noivado por algum motivo não dá certo, lá na frente entrarão num segundo relacionamento carregando consigo as marcas definitivas da antiga experiência. Será fulana XN se relacionando agora com fulano W. Teremos então a relação XNW.

Quer dizer então que quem entra no casamento com um arquivo recheado de experiências sexuais viverá um inferno alfabético? Não posso afirmar, mas é quase certo que o casal colherá alguns frutos não tão doces e terá que rebolar um bocado para não permitir que as experiências anteriores não interfiram na relação sexual atual. Um exemplo? Por vezes escutei o desabafo de mulheres frustradas na cama pois seus esposos não conseguiam alcançar o padrão sexual de seus antigos parceiros. Ou maridos com dificuldades por conta da frieza sexual de suas esposas comparadas ao “fogo” das garotas do passado. Sem contar as doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada.

Quando o casal decide se guardar um para o outro, apesar de entrarem no casamento inexperientes e enfrentarem alguns apuros na cama, terão o privilégio de construir juntos a intimidade sexual sem a interferência de memórias e experiências anteriores. Não haverão lembranças anteriores na cama do casal e tudo o que for relacionado a sexo estará ligado apenas a união desses dois indivíduos. É aquela velha analogia das duas folhas coladas uma na outra. Tende desgrudá-las sem que o pedaço de uma fique grudado na outra. Não rola.

Apenas um pequeno adendo: acesso a pornografia e imagens que despertam prazer sexual causam o mesmíssimo processo no cérebro, por isso é fantástico quando lemos a fala de Cristo sobre o assunto em uma época onde não havia tecnologia, pesquisas e nem profissionais especializados no funcionamento do sistema nervoso:

Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’. Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração.” Mateus 5:27,28

Pois bem,  sigo na certeza de que sentar com a criança e explicar o funcionamento da tomada e do choque em seu organismo é mais eficaz do que dizer: “Me obedece porque sou seu pai!” Quem sabe assim, numa próxima pesquisa a porcentagem de solteiros cristão não virgens tenha caído significativamente, não porque desejamos mostrar algo a sociedade, mas porque entendemos que mais santo não é aquele que deixa de fazer alguma coisa, mas sim aquele que FAZ alguma coisa, toma uma atitude visando o bem do seu próximo, da humanidade e o seu próprio bem. Se valorizo a alma da minha namorada, por mais que a deseje sexualmente, vou preservá-la nesse sentido. É a tal da lei do amor que falamos a pouco. Se realmente me importo com o outro, não vou fazer com que ele corra o risco de se entregar sexualmente a mim sem ter a certeza de que firmaremos um compromisso definitivo. Por mais que no momento eu tenha certeza do que sinto (e quando estamos apaixonados parece não haver dúvidas!), ninguém sabe o dia de amanhã. Quantos casais não romperam às vésperas do casamento? Milhares!

Oro para que mais jovens escolham entrar de forma integral em seus relacionamentos para que desfrutem de uma vida sexual plena, sem medo, culpas ou interferências. Sexo não vem pronto e, assim como todas as áreas que abrangem o casamento, é algo que deve ser zelado e construído em parceria. Se fizerem uma escolha consciente hoje, terão muitos bons frutos a colher amanhã. O oposto também é verdadeiro.

Sabedoria de Deus é o que desejo a cada um de vocês!

Obs.: Se esse artigo edificou sua vida, compartilhe com os adolescentes e jovens que conhece. Sugiro que encaminhe aos líderes de jovens de sua comunidade para que possam debater o tema com maior clareza e profundidade. A humanidade agradece! 🙂

 

¹http://www.bepec.com.br/pdf/sexojovem/ocrenteeosexojovem.pdf

² Pesquisa: “Cientistas revelam como se comporta o cérebro feminino durante o sexo”- Daily Mail

 

 

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1 comentário

  1. Marcos Lima on

    Dani, a paz do Senhor.
    Li seu texto 2,5 (uma vez corrida e mais 2 completas) e pelo menos “pra mim” ainda não consegui chegar numa conclusão se está defendendo ou não o sexo antes do casamento.

    Pois na 1ª parte você parece defender o sexo desde que haja um compromisso de casamento, ou seja, um noivado? Desde que haja um noivado não teria problemas? É isso mesmo?
    A parte do meio é meio neutra, mas a parte final, você parece inverter e defender os valores comuns cristãos de sexo apenas depois do casamento (civil e religioso)!?

    O jovem cristão que começa um namoro (os que são fiéis) começam muito bem intencionados com o desejo de se casarem virgens, acontece que eles não sabem que no decurso desse namoro, eles cairão, pois nada é ensinado nas Igrejas. Toda a referência que eles têm, são as novelas, os amigos de colégio, a rua, etc. Por isso eles caem mesmo, são presas fáceis para o diabo, pois querem ter um namoro do jeito que Não agrada a Deus, aprendido nas ruas e novelas, com mão boba, beijos prolongados, sentadas no colo, e o que mata é o famoso “ficar muito tempo sozinhos”, que é quando acontecem as carícias ousadas… aí não tem oração e jejum que aguente, acabam caindo mesmo, depois ficam chorando, e muitos ainda com vergonha, se desviam da fé, quando percebem que não conseguem mais parar com o sexo. O padrão do Senhor sempre foi e sempre será a Santificação.
    Abraço.

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