A visão de C. S. Lewis sobre: PAIXÃO, AMOR, CASAMENTO, SUBMISSÃO E DIVÓRCIO

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Ao ler uma das melhores obras de apologética do grande mestre e escritor C. S. Lewis – Cristianismo Puro e Simples – deparei-me com um dos argumentos mais inteligentes, sóbrios e bem estruturados sobre o relacionamento a dois. Não poderia ser diferente. Resolvi então compartilhar com vocês. Achei por bem adaptar alguns trechos e reestruturar algumas frases para tornar a leitura mais acessível, mas o conteúdo permanece intacto. 

Bom, vamos ao que interessa! 🙂

“A ideia cristã de casamento se baseia nas palavras de Cristo de que o homem e a mulher devem ser considerados  “uma só carne”- ou um único organismo, numa linguagem mais moderna. Os cristãos acreditam que quando disse isso, ele não estava expressando um sentimento, mas afirmando um fato – da mesma forma que expressa um fato quem diz que o trinco e a chave são um único mecanismo, ou que o violino e o arco formam um único instrumento musical. O inventor da máquina humana queria nos dizer que as duas metades desta, o macho e fêmea, foram feitas para combinar-se aos pares, não simplesmente na esfera sexual, mas em todas a esferas. A monstruosidade da relação sexual fora do casamento é que, cedendo a ela,  tenta-se isolar um tipo de união (a sexual) de todos os outros tipo de união que deveriam acompanhá-la para compor a união total. O cristianismo não toma como errado a existência do prazer no sexo, como não considera errado o prazer que temos quando nos alimentamos. O erro está em querer isolar esse prazer e tentar buscá-lo por si mesmo, da mesma maneira que não se deve buscar os prazeres do paladar sem engolir e digerir a comida, apenas mastigando-a e cuspindo-a.

O cristianismo também nos ensina que o casamento deve durar a vida toda. O divórcio seria como cortar ao meio um organismo vivo, como um tipo de cirurgia. Algumas denominações acham que essa cirurgia é tão violenta que não deve ser feita de forma alguma. Outras, a admitem como um recurso desesperado em casos extremos. Mas todas asseveram que o divórcio se parece mais com uma amputação das pernas do corpo do que com a dissolução de uma sociedade comercial. O que os cristãos realmente repudiam, é a visão moderna de que o divórcio é simplesmente um reajustamento de parceiros, a ser feito sempre que as pessoas não se sentem mais apaixonadas umas pelas outras, ou quando uma delas se apaixona por outra pessoa.

A ideia de que “estar enamorado” é o único motivo válido para permanecer casado é totalmente contrária a ideia do matrimônio como um contrato ou promessa de união eterna. Se tudo se resume a paixão, o ato da promessa nada lhe acrescenta; e, assim, nem deveria ser feito. Uma coisa curiosa é que os próprios amantes, enquanto permanecem apaixonados, sabem disso muito mais que os que só falam de amor. As canções de amor do mundo inteiro estão repletas de juras de fidelidade eterna. A lei não exige do amor algo que é alheia a sua natureza: exige apenas que os amantes levem a sério algo que a própria paixão os impele a fazer.

E é evidente que a promessa de ser fiel para sempre, que fiz quando estava apaixonado e porque o estava, deve ser cumprida mesmo que deixe de estar. A promessa diz respeito a ações, a coisas que posso fazer: ninguém pode fazer a promessa de ter um determinado sentimento para sempre. Seria o mesmo que prometer nunca mais ter dor de cabeça ou nunca mais ter fome. Pode-se perguntar, no entanto, qual o sentido de manter unidas duas pessoas que não se amam mais. Existe um motivo do qual estou bastante convencido, mesmo que o julgue difícil de explicar.

É difícil porque tanta gente não consegue se dar conta de que, mesmo que B seja melhor que C, talvez A seja melhor que ambos. As pessoas gostam de raciocinar com os termos “bom” e “mau”, e não com os termos “bom”, “melhor” e “melhor de todos”. Elas perguntam se você julga o patriotismo uma coisa boa; se você responde que ele é muito melhor que o egoísmo dos indivíduos, mas bastante inferior a caridade universal, e que deve ceder lugar a esta sempre que os dois estiverem em conflito, elas acham sua resposta evasiva… Espero que ninguém cometa o mesmo erro com o que tenho a dizer agora.

O que chamamos de “estar apaixonado” é um estado maravilhoso e , sob diversos aspectos, benéfico para nós. Ajuda-nos a ser mais generoso e corajoso, abre nossos olhos não apenas para a beleza do objeto amado, mas para toda a beleza, e subordina (especialmente no início) nossa sexualidade animal; nesse sentido, o amor é o grande subjugador do desejo. Ninguém que tenha o uso perfeito da razão negaria que estar apaixonado é melhor que a sensualidade ordinária ou o frio egocentrismo. Mas, como eu disse antes, “a coisa mais perigosa que podemos fazer é tomar um certo impulso de nossa natureza como padrão a ser seguido custe o que custar”. Estar apaixonado é muito bom, mas não é a melhor coisa do mundo. Existem muitas coisas abaixo, mas também muitas outras acima disso. 

A paixão amorosa não pode ser a base de uma vida inteira. É um sentimento nobre, mas mesmo assim, é apenas um sentimento, e não podemos garantir de forma alguma que um sentimento vá conservar para sempre sua intensidade total, ou mesmo que vá perdurar. E, o que quer que as pessoas digam, a verdade é que o estado de paixão amorosa normalmente não dura. Se o velho final dos contos de fadas: “E viveram felizes para sempre” quisesse dizer que “pelos cinquenta anos seguintes sentiram-se atraídos um pelo outro como no dia anterior ao casamento”, estaria se referindo a algo que não acontece na realidade, que não pode acontecer e que, mesmo que pudesse, seria pouquíssimo recomendável.

Quem conseguiria viver nesse estado de excitação mesmo por cinco anos? Que seria do trabalho, do apetite, do sono, das amizades? E claro, porém, que o fim da paixão amorosa não significa o fim do amor. O amor nesse segundo sentido – distinto da “paixão amorosa” – não é um mero sentimento. É uma unidade profunda, mantida pela vontade e deliberadamente reforçada pelo hábito; é fortalecida ainda (no casamento cristão) pela graça que ambos os cônjuges pedem a Deus e dele recebem. Eles podem fruir desse amor um pelo outro mesmo nos momentos em que se desgostam, da mesma forma que amamos a nós mesmos mesmo quando não gostamos da nossa pessoa. Conseguem manter vivo esse amor mesmo nas situações em que, caso se descuidassem, poderiam ficar “apaixonados” por outra pessoa. Foi a “paixão amorosa” que primeiro os moveu a jurar fidelidade recíproca. O amor sereno permite que cumpram o juramento. 

É através desse amor que a máquina do casamento funciona: a paixão amorosa foi a fagulha que a pôs em funcionamento. Tome o cuidado, porém,  para não embasar seu julgamento em ideias derivadas de romances ou de filmes. E isso não é tão fácil de fazer quanto as pessoas pensam. Nossa experiência é preenchida pelas cores dos livros, peças de teatro e filmes do cinema, e é necessário ter paciência para delas desentranhar e para separar o que aprendemos da vida por nós mesmos. As pessoas tiram dos livros a ideia de que, se você casou com a pessoa certa, viverá “apaixonado” para sempre. Como resultado, quando se dão conta de que não é isso o que ocorre, chegam à conclusão de que cometeram um erro, o que lhes daria o direito de mudar – não percebem que, da mesma forma que a antiga paixão se desvaneceu, a nova também se desvanecerá. Nesse departamento da vida, como em qualquer outro, a excitação é própria do início e não dura para sempre. 

A emoção intensa que um garoto tem quando pensa em aprender a pilotar um avião não sobrevive quando ele se junta à Força Aérea, onde realmente vai aprender o que é voar. A palpitação de conhecer um lugar novo se esvai quando se passa a morar lá. Acaso quero dizer que não devemos aprender a voar ou não devemos morar num lugar aprazível? De jeito nenhum. Em ambos os casos, se você perseverar, o arrepio da novidade, quando morre, é compensado por um interesse mais sereno e duradouro. Além disso (e mal consigo lhe dizer o quanto isto é importante), são exatamente as pessoas dispostas a sofrer a perda do frêmito inicial e a acatar esse interesse mais sóbrio que têm maior probabilidade de encontrar novas emoções em campos diferentes. 

Segundo me parece, essa é uma pequena parte do que Cristo quis dizer quando afirmou que nada pode viver realmente sem antes morrer. Simplesmente não vale a pena tentar manter viva uma sensação forte e fugaz: é a pior coisa que podemos fazer. Deixe o frisson ir embora — deixe-o morrer. Se você passar por esse período de morte e penetrar na felicidade mais discreta que o segue, passará a viver num mundo que a todo tempo lhe dará novas emoções. Mas, se fizer das emoções fortes a sua dieta diária e tentar prolongá-las artificialmente, pulando de relacionamento em relacionamento, elas vão se tornar cada vez mais fracas, cada vez mais raras, até você virar um velho entediado e desiludido para o resto da vida. 

É por serem tão poucas as pessoas que entendem isso que encontramos tantos homens e mulheres de meia-idade lamentando a juventude perdida, na idade mesma em que novos horizontes deveriam descortinar-se e novas portas deveriam abrir-se. É muito mais divertido aprender a nadar que tentar resgatar incessantemente (e inutilmente) a sensação da primeira vez que chapinhamos na água quando garotos. Outra ideia que apreendemos de romances e peças de teatro é que a paixão amorosa é algo irresistível, algo
que simplesmente “contraímos”, como sarampo. Por acreditar nisso, certas pessoas casadas largam tudo e se atiram a um novo amor quando se sentem atraídas por alguém. Penso, porém, que essas paixões irresistíveis são muito mais raras na vida real que nos livros, pelo menos depois de chegarmos à idade adulta. Sem dúvida, se nossa cabeça está cheia de romances, peças e canções sentimentalistas, e nosso corpo está cheio de álcool, vamos tender a transformar qualquer amor nesse tipo específico de amor, da mesma forma que, se houver uma valeta junto à estrada num dia de chuva, toda a água vai correr por ela, ou, se você estiver usando um par de óculos de lentes azuis, tudo ficará azulado. A culpa será sua.


Bom, resta tratar de outra coisa, ainda menos popular. As esposas cristãs fazem o voto de obedecer a seus maridos. No casamento cristão, diz-se que os homens são a “cabeça”. Duas questões obviamente se levantam: Por que a necessidade de uma “cabeça” — por que não a igualdade? e Por que a “cabeça” deve ser o homem?
 

Respondo:

1 – A necessidade de uma cabeça segue-se da ideia de que o casamento é permanente. E claro que, na medida em que o marido e a esposa estão de acordo, a necessidade de um líder desaparece; e gostaríamos que esse fosse o estado de coisas normal no casamento cristão. Mas, quando existe um desacordo real, o que se deve fazer? Conversar sobre o assunto, é claro; estou partindo da ideia de que tentaram fazer isso e mesmo assim não conseguiram chegar a um acordo. O que fazer então? O casal não pode decidir por votação, pois não existe maioria absoluta entre duas pessoas. Certamente, uma das duas coisas pode acontecer: podem separar-se e cada um ir para o seu lado, ou então uma das partes deve ter o poder de decisão. Se o casamento é permanente, uma das duas partes deve, em última instância, ter o poder de decidir, visando sempre o bem da família como um todo. Não se pode ter uma associação permanente sem uma constituição.

2 – Se há a necessidade de um líder, por que o homem? Em primeiro lugar, pergunto: existe uma vontade generalizada de que isso caiba à mulher? Pelo que vejo, nem mesmo a mulher que quer ser a chefe de sua própria casa admira essa situação quando a observa na casa ao lado. Nessas circunstâncias, costuma exclamar: “Pobre sr. X! Por que ele se deixa dominar por aquela mulherzinha horrível? Isso está acima da minha compreensão.” Também não penso que ela fique lisonjeada quando alguém menciona o fato de ser ela a “cabeça” ou a líder do lar. Deve haver algo de anti-natural na proeminência das esposas sobre os maridos, pois as próprias esposas ficam bastante envergonhadas disso e desprezam maridos que se submetem as suas mulheres”.

Trecho retirado de Cristianismo Puro e Simples, de C. S. Lewis (adaptado por Daniela Marques)

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1 comentário

  1. Ótimo texto! Estou ansiosa para ler essa biografia…Assim como você, admiro muito C.S.Lewis, sua forma de escrever e principalmente as inspirações que ele teve em sua escrita. Acho fantástico o desprendimento que ele teve da religião, o que o levou a ter liberdade de escrever fábulas, ensaios, além de textos dissertativos maravilhosos como esse. Era como se ele quisesse dividir com o leitor seus pensamentos. Cresço sempre que leio C.S.Lewis. Obrigada, Dani.

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