AINDA SOBRE A TAL PERFORMANCE NO MAM

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Na semana passada, o vídeo de um homem totalmente nu em performance no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) deixou a população alarmada. Durante sua apresentação, o artista ficou imóvel ao centro da exibição enquanto os espectadores trocavam a posição de seus braços, pernas e interagiam das mais diversas formas. Uma criança, sob a supervisão da sua mãe, foi filmada interagindo com este homem durante a tal performance. Não tocou nos genitais, apenas nos pés. Segundo o MAM, a sala “estava devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação” e avisava sobre a nudez artística. Afirmou ainda que “a performance “La Bête”, realizada em evento de inauguração da mostra, não tem conteúdo erótico e propõe uma leitura interpretativa da obra “Bicho”, de Lygia Clark.”

Pra quem ainda não conhece a obra de Lygia Clark, aí vai um breve esclarecimento. Ela expõe formas de esculturas  simples e geométricas onde cada parte é aproximada com dobradiças, criando a ideia de linha orgânica. A partir desse ponto o espectador passa a ser figura atuante para a obra. A intenção da artista é que a profundidade dos planos e a forma transformadora obtenha a característica de obra viva, atuante e criada pelo público.

Achei até bacana a ideia central da tal performance no MAM, inclusive para trabalhar com crianças. Imagine o artista (vestido, obviamente) imóvel, ao centro, como se fosse uma peça de arte, permitindo que crianças interajam e tenham a liberdade de criar formas e movimentos com o seu corpo? Ideia genial do protagonista da polêmica, não fosse o nu.

Li muitas postagens a respeito do acontecido, além de diversas reportagens. Dialoguei em minhas redes e observei diversos pontos de vista antes de escrever esse texto. E por que? Porque aprendi que, as vezes, o quadrado que estou enxergando pode se transformar em um edifício se dou um passo e mudo a minha perspectiva. Não é bacana estabelecer um ponto de vista sem antes analisar alguns outros.

Mas antes de prosseguir, gostaria de esclarecer algumas questões sobre a nudez. A criança tem contato com o nu desde que nasce, aliás, essa é uma informação importante para ela entender como funciona o seu próprio corpo. “Saber que existem diferenças entre meninos e meninas, entre os corpos das crianças e dos adultos e saber estabelecer os limites sobre o que são partes íntimas, que partes não devem ser tocadas por outras crianças ou adultos que não sejam responsáveis pela sua higiene e cuidados diários, são conhecimentos não só saudáveis, mas protetivos no que se refere à prevenção da violência sexual.”, diz a especialista em educação sexual, Caroline Arcari.

Outro detalhe importante. Performance com nu artístico não relacionada a erotização existe há centenas de anos. Em teatros (de rua inclusive), escolas de teatro, centros artísticos e etc. Esses dias mesmo uma amiga assistiu um musical no Sesc com os filhos (crianças) onde o personagem principal se despia completamente. Tenho amigos atores que já se despiram em teatros de rua também. A nudez não é ruim. O estar nu não significa necessariamente algo pejorativo ou erótico. Precisamos exercitar um raciocínio mais amplo, mais profundo e constatar que o problema não está na nudez em si, e sim no que se faz com ela. Este é o foco da questão.

Uma criança interagir fisicamente com um estranho nu com o consentimento de seus pais abre sim um precedente muito perigoso. Mamãe achar bacana a interação do filhote com um estranho nu “traz confusão quanto ao entendimento sobre consentimento, a diferenciação entre toques de afeto e toques abusivos e os limites quanto à privacidade e segurança em relação ao próprio corpo […] quanto mais nova a criança, menor a capacidade de fazer distinção entre a fantasia, o lúdico, a arte e uma situação real de violência sexual potencial. Enquanto nós adultos temos ferramentas suficientes para entender que, naquele contexto, a nudez tinha um significado específico, a criança ainda não compreende essa diferença e pode ficar vulnerável à violência sexual ao naturalizar aquele contato.”, diz Carolina.

Vejam bem, estamos falando de um país onde se recebe mais de 50 denúncias de abuso sexual infantil POR DIA, sem contar as centenas que ficam encobertas. Por isso me preocupei um bocado com a atitude dos pais e a quantidade de holofotes jogados apenas em cima do artista e do museu. Vi pouquíssimas pessoas e veículos frisando a atitude dos responsáveis. Uma sociedade se faz de indivíduos e, se no macro as coisas estão tão erradas, é porque no micro também tem muita coisa fora do lugar. E o ato de observar a atitude dos pais não deve ser no sentido de apedrejamento, e sim de autoanálise. É olhar no espelho e observar nossas próprias atitudes como pais e responsáveis.

Vamos jogar a real. Crianças tem acesso diariamente a novelas da globo, filmes que não são apropriados para a sua faixa etária, internet liberada sem supervisão de responsáveis e poucos se manifestam. E quantas crianças e adolescentes entram todos os dias em salas de cinema que exibem filmes proibidos para sua idade? Em todos esses ambientes eu pergunto: aonde está a mediação dos pais? Os responsáveis pelos estabelecimentos deveriam ser mais criteriosos? Sim!  Mas estamos carecas de saber que a indústria cultural não trabalha a favor da proteção da infância e equilíbrio da sociedade. Difícil esperar boas coisas dali. Precisamos fazer valer a lei, botar a boca no trombone e proteger nossas crianças sim! Estatuto da Criança e do Adolescente neles! Mas a verdade é que, se os pais não se conscientizam, teremos uma criança em casa assistindo um filme classificação 16 com cenas de sexo grupal após ter sido barrada na porta do MAM. Percebe como  o buraco é mais embaixo? Esses dias minha filha de 10 anos trouxe par.a casa a fala de um de seus coleguinhas:

Minha mãe não sabe escolher muito bem os filmes que eu assisto… Sempre tem muita gente pelada e “transação”.

Pois é, “será que todo mundo que berra aos quatro cantos que nossas crianças estão expostas à pedofilia presta também atenção ao que elas estão vendo na internet ou nos aparelhos celulares que usam como brinquedos, ou ainda na violência cotidiana mostrada na TV? Um levantamento feito pelo Comitê para Prevenção dos Homicídios na Adolescência no Ceará, por exemplo, revela um alarmante número de assassinatos de jovens no Estado e, entre as evidências desse aumento,eere está a relação com a cultura da violência nos programas policialescos, que naturalizam essa questão.”¹

“Assim, é responsabilidade do MAM, do artista, da comunidade e das instâncias de garantia dos direitos das crianças e adolescentes, respeitarem os direitos desse público e pensarem, juntos, em estratégias que assegurem uma visitação de qualidade e apreciação de obras e performances, sem prejuízos ao desenvolvimento saudável desse público específico.”² Mas é de ainda maior valor o exercício de responsabilidade dos pais conhecer, analisar, discutir, negociar e escolher o entretenimento dos filhos. Afinal, o cara que pode vir a organizar um evento no MAM ou no espaço cultural do Santander no futuro, hoje está aqui, sentado no sofá da minha casa!

Por Daniela Marques

Facebook/DaniMarquesEscritora

 

¹ Carlos Bezerra Jr. é médico ginecologista e obstetra e deputado estadual por SP.

² CAROLINE ARCARI é pedagoga e educadora sexual, especialista em Educação Sexual pelo CESEX e mestre em Educação Sexual pela UNESP

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