#BelaRecatadaEDoLar

2

tumblr_l918f18ein1qaesqjo1_500_large1

 

Escrever é uma das minhas grandes paixões e formar opinião sobre temas diversos é outra. É o tipo de coisa que preciso me conter para não passar dos limites. O tal do domínio próprio. Juro que lutei muito contra minha vontade para não lançar meu posicionamento a respeito da polêmica #BelaRecatadaEDoLar. Pensei: a internet já está saturada, uma opinião a mais não vai fazer diferença. Li algumas coisas e até senti uma pontinha de orgulho de minha pessoa por não ter metido a língua entre os dentes (ou os dedos no teclado).

Eis que então, uma leitora fiel do blog Salve Meu Casamento atinge em cheio o meu calcanhar de Aquiles: Dani, gostaria muito de ler uma opinião sua a respeito da polêmica #BelaRecatadaEDoLar. Puf! Todo o meu autocontrole foi por água abaixo. Cá estou eu… Caramba, como sou fraca!

Brincadeiras a parte, agradeço de coração a confiança dessa leitora. Sinto-me honrada em saber que minha opinião influencia e colabora de alguma forma. Peço a Deus sabedoria, pois essa é uma grande responsabilidade!

Bem, antes de prosseguir com o raciocínio, preciso confessar que tenho uma terceira paixão: a psicanálise. Há algum tempo venho – dentro dos meus limites e possibilidades – estudando o comportamento humano, o que me levou a analisar mais e julgar menos. Diante de uma situação polêmica como essa, a Dani de antigamente provavelmente encheria a boca para sentenciar sem ouvir com calma as partes usando de empatia, mas depois de um bocado de informações e estudos sobre os porquês de algumas ações e reações, fui sossegando a alma e me tornando um pouco mais compreensiva.

Olho então para a posição da revista Veja a respeito da possível nova primeira dama, Marcela Temer, e a reação que tenho é neutra. Não me causa raiva nem espanto. Muito menos admiração. Nada, zero, indiferença total. Uma das coisas que aprendi e venho exercitando com a psicanálise é não criar expectativa sobre coisa alguma, o que diminuiu drasticamente o nível e frequência de minhas frustrações e decepções (#ficaadica).

E, caros leitores, digam-me, é possível criar algum tipo de expectativa positiva a respeito de veículos de informações tendenciosos como a Veja? Dentro dessa indústria poucos profissionais e emissoras se salvam. A verdade é que a grande maioria está focada em números, resultados, grana. Família, moral, justiça e ética? Em segundo plano, sempre. Pedras ou pétalas sobre a matéria? Pra eles tanto faz, o importante é que os holofotes permaneçam acesos.

Então, diante dessa constatação, recomendo a você que passe a olhar para o conteúdo oferecido pela mídia sem criar expectativa alguma. Faça isso com todos os veículos. Já fui vítima do sensacionalismo e descobri (apanhando) que o lado obscuro da indústria midiática é feio, muito feio mesmo. Sim, eles facilitam a comunicação e vez ou outra nos trazem boas matérias, algumas até dignas de aplausos, mas sugiro que exercite o “pé atrás” e expectativa zero, sempre.

Agora, vamos observar o outro lado da moeda, o público enfurecido da hashtag #BelaRecatadaeDoLar. Bem, a fúria certamente não veio exatamente pelo bela. Dizer que uma moça é bonita não enfurece tanto assim, no máximo uma invejinha de leve. Nada digno de hashtag. Se a matéria não tivesse unido “recatada e do lar” ao adjetivo “bela”, certamente não teria gerado todo esse movimento. Sim, sou totalmente contra o peso que a ditadura da beleza despeja sobre os nossos ombros, mas não consigo negar que Marcela é uma mulher bonita e não, não me sinto diminuída por admitir isso. Mas vamos direto ao ponto, a cutucada na ferida,  a vara curta que despertou a onça:

RECATADA E DO LAR

Lendo alguns artigos e posicionamentos constatei que não foi o fato de terem-na denominado recatada e do lar que despertou a fúria de uma multidão de mulheres (e de alguns poucos homens também), mas sim o fato de isso ter sido citado como elogio, ressaltando que Temer seria um homem de sorte por ter uma mulher assim.

“O que? Recatada um elogio? E do Lar? Sorte ter uma mulher dessas? Céus, tantos anos de avanço para retroceder assim em tão pouco tempo? Será que nossa luta não valeu de nada? Não aceitamos tal disparate, vamos protestar e mostrar ao mundo para que viemos!”

E eis que surge a onda (na verdade o tsunami) #BelaRecatadaEDoLar: fotos, artigos, comentários, reportagens, referências, críticas e xingamentos acompanhados da tal hashtag. Muitos pegaram a pranchinha e entraram na onda apenas por brincadeira. Pelo menos foi o que notei na minha time line. Mas, indo direto ao ponto, eu me pergunto:

Por que tal afirmação teve o poder de despertar tamanha indignação?

Dicionário, nos dê uma mão, por favor: “Recatada = reservada, que possui pudor, prudente, que foge de holofotes.” Bem, é certo que as atitudes do corpo são os manifestos da alma,  ou seja, o pudor e prudência são aspectos do comportamento que nos levam a apresentar-nos como seres com corpo e alma. É o que nos diferencia dos animais. Veja que há uma diferença abismal entre lutar por direitos iguais com pudor, decência e prudência e sair pelas ruas jorrando palavras de baixo calão com os seios a mostra. Não é questão de poder ou não poder, mas da escolha de um caminho que visa o mesmo objetivo. Guarde essas informações, pois vamos utilizá-las mais adiante. Passemos agora a expressão “Do Lar”.

No caso da esposa de Temer, foco da reportagem, podemos considera-la uma “do lar” a parte. Aquele tipo de dona de casa que não lava banheiro e nem roupa no tanque. Provavelmente tem motoristas, babás e empregadas ao seu dispôr. Sem contar o tempo($) disponível para a prática de esportes, estética, entretenimento e saidinhas em restaurantes com paredes a prova de som. Não acho que a dama em questão represente a verdadeira mulher “do lar” que, em sua grande maioria, carrega sobre si 100% dos cuidados com a casa, roupas, educação, filhos, refeições, compras, consultas, reuniões escolares, exames, sustento e etc. Essas sim representam o time das “Senhoras do Lar”, do qual faço parte, diga-se de passagem.

Mas por que destacar esses adjetivos como virtude soa tão negativo para uma parcela da população? Por que incomoda tanto o elogio a uma mulher que optou pela vida – como dizem – à moda antiga? Talvez por parecer que só esse tipo de perfil tem valor? Ou quem sabe pela fonte da matéria e contexto político? É… provavelmente.

“Pensar que um homem, para ser feliz, precisa encontrar uma mulher com esses padrões, ou seja, reduzir o valor de uma mulher a sua capacidade de fazer um homem se sentir realizado e bem visto é realmente muito pequeno. Quantas mulheres conhecemos que nem marido têm? Quantas que, abandonadas por seus parceiros, precisam se jogar no mercado de trabalho para garantir o sustento dos filhos? Como ser “do lar” nessa situação? E as mulheres que já não cumprem, até pela idade, o padrão de beleza implícito na matéria? E o recatada, que remete ao discreta? Quantas mulheres tiveram que ir à luta para defender ideais nos quais acreditavam, tendo que, pra isso, abrir mão do recato ou do silêncio que caracteriza as pessoas mais discretas e bem vistas?”¹

Isso realmente traz indignação, desperta fúria, mas sabe, o que me preocupa mesmo é ver que por medo de voltarmos a opressão de um sociedade machista, ao invés de encontrarmos um equilíbrio, estejamos migrando para o extremo oposto. É como ser picado por cobra e passar a vida fugindo de minhoca. A mulher conquistou o seu espaço e graças a isso hoje estou escrevendo esse artigo. Mas ainda não consigo enxergar como negativo (ou retrocesso) o fato de “recatada e do lar” terem sido citados como ponto positivo. Caramba, ter cacife pra ser “do lar” (do lar de verdade mesmo!) é mais do que um elogio, é virtude! E penso que admitir isso não faz com que uma workaholic ou uma “não do lar” seja defeito.  Uma coisa não anula a outra, de forma alguma. Há espaço para a mulher do lar, da carreira e também para a que desempenha os dois papeis. Todas dignas de aplausos.

E quanto ao termo recatada, o raciocínio muda um pouco. Uma mulher não recatada, ou seja, sem pudor, sem reservas, que busca holofotes a custo inclusive dos próprios valores, que fala sem filtro, atropela a moral, não me parece ser algo que contribui positivamente para uma sociedade que anseia por equilíbrio e sobriedade. Me lembro agora de um provérbio interessante que diz:Como anel de ouro em focinho de porco, assim é a mulher bonita, mas indiscreta.” Pv. 11.22. E veja bem, isso não se restringe ao sexo feminino. Nenhuma mulher sonha em ter como marido e pai dos seus filhos um homem narcisista, imprudente, sem pudores, moral e valores.

Noto que um numeroso grupo de mulheres sente calafrios só de pensar na possibilidade de receber tratamento diferenciado ou ser subjugada apenas por ter útero e vagina e, por isso, anda carregada de pedras. É o tal do medo da minhoca por causa da cobra. Em nome igualdade de direitos (da qual sou 100% a favor), migra-se então para um outro extremo que penso não ser tão benéfico assim. E não, não estou falando do movimento feminista, mas de atitudes isoladas dentro dele. Se visamos uma sociedade mais equilibrada, sinto que uma mãe, esposa e profissional recatada – o que não quer dizer sob o controle do mundo machista – e do lar, ou seja, presente na vida dos filhos e cuidados com a casa, venha a ser algo que constrói e não destrói. O que observo na reação de muitas mulheres que lutam enfurecidamente pela liberdade, é a imposição subjetiva de um outro padrão de comportamento: Não seja recatada e nem do lar! E, de tantas outras, escuto/leio palavras de desvalorização e o não-reconhecimento: Você não trabalha, é só do lar?

E pensando na pequena sociedade, que é o nosso lar, onde aprendemos (ou não) as primeiras lições sobre moral e ética e recebemos boa parte das influências para a formação do caráter, ter como referência de mulher uma pessoa sem pudor algum, que não filtra suas palavras e ações, que expõe seu corpo de forma desnecessária e passa mais tempo fora de casa, longe da família, terceirizando a maternidade, me faz ter medo do futuro. Aliás, penso que o caos do presente fala muito sobre essa ausência. Em busca de uma igualdade, estamos pulando para um outro extremo e deixando um espaço vazio. Um espaço que deveria ser preenchido pela figura feminina que alcançou sim seus direitos e encontrou o seu espaço, mas para isso não precisou sacrificar seu caráter, comportamento, sua família e seu lar.

Não consigo de forma alguma dizer que estamos no caminho certo. Na verdade, sinto ser este um caminho que reserva muitas armadilhas. Então, como mulher, peço sabedoria a Deus. Se desejo ver um mundo melhor, começo com as minhas pequenas ações. A mulher sábia edifica o seu lar (sua pequena sociedade), a tola, com as próprias mãos o destrói. Opto pela sabedoria.

A beleza interior quando é estimulada e bem alimentada, produz o cuidado com as palavras, ações, prudência, faz o cérebro ser mais rápido que a boca e traz a real preocupação com o rumo que toma a humanidade. E isso, consequentemente, nos leva a um maior cuidado com o lar, afinal, como pais e responsáveis que somos, estamos (querendo ou não) contribuindo para a formação do caráter dos cidadãos do amanhã.

Então, se for para ser bela, que seja de alma. Se for para ser recatada, que seja na prudência com as palavras e ações. Se for para ser do lar, que seja no investimento da sua pequena sociedade. E se Temer tem mesmo como esposa uma mulher com todos esses adjetivos, sorte a dele. Doa a quem doer.

 

Daniela Marques – mãe, esposa, do lar e escritora nas horas vagas.

[¹] Contribuição de Cristina Cruz, revisora e preparadora de textos – adaptado

 

 

Share.

2 Comentários

  1. Ola, considero totalmente valido o ponto de vista que vc expôs aqui, apenas acho que vc foi compreensiva demais com a matéria, como se fosse um texto isolado, livre do contexto político e do próprio contexto da revista. Ex. Se eu encontrasse o texto em um blog, assim como encontrei o seu, eu não teria uma leitura totalmente negativa dele, um pouco negativa por ser um texto muito sem graça e simplista, mas nada de mais. Porem, considerando o contexto, a meu ver a matéria chega a ser agressiva às mulheres. Se interessar, peço que leia o que escrevi sobre o assunto e me de sua opinião:

    http://gajavirino.blogspot.com.br/2016_04_01_archive.html

    • Daniela Marques on

      Estou totalmente de acordo com você em relação ao contexto político e a tendenciosa Veja. E também estou 100% de acordo com a equidade, igualdade de direitos. As mulheres possuem um potencial fantástico e já provaram isso. Não vieram ao mundo para serem coadjuvantes. Mas o que me preocupa mesmo é a aversão que notei nas redes, quase ao ponto de “recatada e do lar” serem tidos ofensa. O ponto central do meu artigo é fazer pensar no perigo de se migrar para o extremo oposto. Observo na reação de muitas mulheres a imposição de um outro padrão de comportamento: “Não seja recatada e nem do lar!” e dessas mesmas mulheres a desvalorização e o não-reconhecimento: “Você não trabalha, é só do lar?”. Penso que nós recebemos um dom magnífico, extraordinário, que é o dom da maternidade e que deveria ser exaltado e valorizado. Temos habilidades naturais que os homens não possuem (não que não possam desenvolver) e vice-versa, o que contribui e MUITO para a edificação da nossa pequena sociedade, o nosso lar. Penso que a mulher pode conquistar todos os espaços que quiser, mas nunca abrir mão do principal dos espaços que é o seu lar. Sim, homens também podem desempenhar esse papel, claro! Mas não podemos deixar esse buraco “destampado” enquanto decidimos quem fica ou quem sai. Eu, por exemplo, decidi encontrar um tipo de trabalho que me permitisse investir no lar, que é a minha prioridade. Encontrei meu espaço na grande sociedade, tenho voz, mas não abri mão do que considero prioritário, minha família. E sei que meu marido, se preciso fosse, também desempenharia esse papel com todo amor e dedicação. E isso não diminui em nada a mulher que optou (ou precisou optar) pela vida fora de casa. Ambas são dignas de reconhecimento e aplausos! Todas tem o seu lugar. O artigo estimula uma outra vertente (que não anula a do seu texto), que é a questão do “migrar para o extremo oposto e deixar um espaço vazio”. É isso que inquieta o meu coração e expus aqui. Agradeço sua participação e a troca de ideias! Abraços, Dani.

Leave A Reply